terça-feira, 30 de novembro de 2010

ELEMENTOS ESTÉTICOS DA CENA BRINCANTE

Xilogravura de Carlos Henrique (Crato-CE)
 
I – Conceituação:

A estética brincante de encenação reside na incorporação de elementos da cultura tradicional popular na concepção de seus traços constitutivos, quais sejam:

a) Dramaturgia que busque temática alinhada aos contos, causos, lendas, romances e aventuras bebidas do vasto imaginário e romanceiro populares, da sabedoria ancestral de base ibérica, ameríndia e africana.

b) Interpretação que se construa a partir do e no universo dos folguedos, dos cantadores, emboladores, rabequeiros, penitentes, cânticos e dançares negros e indígenas, palhaços, pássaros e bichos da nossa fauna, brincadeiras e brinquedos populares, esculturas e objetos artesanais, bonecos e desenhos animados, temperada com elementos do Circo, da Gestualidade Física e Espiritual Nordestina e da Commedia dell'Arte.

c) Carpintaria Técnica que produza cenografia, figurino, maquiagem, coreografia, caracterização, sonoplastia, música e iluminação, fundados na xilogravura, nas inscrições rupestres, nos símbolos rurais, nos desenhos de crianças, nos cantos, danças, cantigas e instrumentos musicais populares, nas cores e sons primitivos da natureza sertaneja.

Xilogravura de Carlos Henrique (Crato-CE)


II – Objetivos do projeto CENA BRINCANTE:

1. Difundir valores do folclore e da cultura nordestina através de estética dramática sertaneja, alinhada ao imaginário popular e ao resgate de tradições ancestrais, que remontam aos processos iniciais de formação do povo brasileiro, a partir de matrizes de origem ameríndia, africana e européia;

2. Oportunizar a formação de platéias, especialmente juvenis, inspirando senso crítico e auto-estima em termos de identidade cultural, potencializando-as para o convívio e interação com outras culturas e linguagens artísticas;

3. Estimular a congregação de estudiosos, pesquisadores, produtores, atores, encenadores, mestres da cultura tradicional popular, brincantes, autores e técnicos em torno da discussão de proposta estética de leitura e releitura da história, das tradições e do imaginário do sertão nordestino como fonte inspiradora de criação em artes cênicas, literatura, música, dança e noutros processos de manifestação da alma indômita do artista nordestino;

4. Contribuir na consolidação dos artistas e do produto cultural como importantes e fundamentais na geração de renda e desenvolvimento sócio-cultural com dignidade e valorização humana.


Xilogravura de Carlos Henrique (Crato-CE)


III – Considerações essenciais:

O projeto CENA BRINCANTE, desenvolvido pela Cia. Cearense de Teatro Brincante / Sociedade Cariri das Artes - Ponto de Cultura do Brasil, dirigido por Cacá Araújo, reveste-se de singular importância porque propõe o fortalecimento da tendência de valorizar a cultura tradicional popular nordestina como leitmotiv nas variadas linguagens artísticas. Neste caso particular, na viabilização de dramaturgia encenação alinhadas ao resgate e à difusão de tradições folclóricas, fundada na expressão do imaginário popular, nas lendas, nos causos, nas aventuras, na história, nos mistérios que habitam a alma afoita e brincante do sertanejo, cujo sangue saltitante se perpetua no riso e na dor, na graça e no sofrimento, na desventura e na esperança.

É uma ação de pesquisa e realização cênica de caráter popular e com perspectiva de povo, que também se justificada por beneficiar a comunidade regional com a facilidade de acesso a bens e serviços culturais, encontrando-se e reencontrando-se com e no seu próprio mundo, resultado que é da fusão de três mundos originais que nasceram de outros, revelando-nos o caráter universal de qualquer gesto humano.


Cacá Araújo
Diretor - (88) 8801.0897

Pra quem gosta de MÚSICA DE QUALIDADE - Festival de Choro e Jazz em Jericoacoara


CULTURA: FESTIVAL DE CHORO E JAZZ DE JERICOACOARA


Com as presenças de alguns dos maiores nomes da música instrumental e vocal do Brasil, o II Festival de Choro e Jazz de Jericoacoara prova que veio para ficar. Presenças de grandes nomes como Hermeto Pascoal, Arismar do Espírito Santo, Banda Mantiqueira, Yamandú Costa, Théo de Barros, Trio Curupira, Moderna Tradição, Dori Caymmi, um dos mais famosos acordeonistas do mundo: Richard Galliano, Renato Braz, Cléber Almeida, o violonista Maurício Carrilho, o cantor Celso Viáfora, a cantora Joyce Moreno, e o pequeno Guiliano Eriston estarão no Festival na praia.

A segunda edição do Festival de Choro e Jazz de Jericoacoara começa amanhã e segue até próximo sábado. Entre as atrações, Yamandú Costa e Dori Caymmi. Mar, sol, dunas, boa mesa e brisa de tranquilidade. Quer mais? Que tal cinco dias com grandes nomes da música instrumental, nacional e internacional, se apresentando ao ar livre, de graça, na badaladíssima praia do litoral oeste do Ceará: Jericoacoara! Pois é lá mesmo, na antiga vila de pescadores, encravada bem no meio do Parque Nacional homônimo, que começa amanhã, 30, e segue até próximo sábado, dia 4, a segunda edição do "Festival de Choro e Jazz Jericoacoara". Para o evento de 2010, o responsável pela produção da iniciativa, o paulistano Antonio Ivan, mais conhecido como Capucho, destaca que a proposta do Festival é intensificar a integração das linguagens entre chorões e jazzistas.

"Teremos aqui o encontro de nomes representativos da cena musical do Brasil, Argentina e França. Estão vindo artistas antenados com a música contemporânea e tradicional do mundo inteiro. Estamos certos de que, novamente, esse evento proporcionará momentos e experiências bem instigantes", destaca produtor. Quem abre os trabalhos, amanhã, a partir das 20h, no palco montado na praça principal, e única do vilarejo, é o representante da cena local Guiliano Eriston. O garoto virtuose, de apenas 13 anos, nascido em Bela Cruz, Interior do Ceará, acumula no currículo, além de sete anos de carreira, acompanhamentos a artistas como Roberta Sá, Davi Moraes, Toninho Horta, Pedro Luiz e outros. Nessa mesma noite, às 21h, o grupo de solistas "Moderna Tradição" formado por Benjamim Taubkin (pianista), Izaías Bueno de Almeida (bandolinista), Israel 7 Cordas (violonista), Nailor Proveta (saxofonista e clarinetista), e Guello (percussionista), vêm de São Paulo mostrar o que é que o choro tem.

Na sequência, a partir das 23h, a "Banda Mantiqueira", comandada pelo arranjador Nailor Proveta, juntamente com alguns músicos da "Moderna Tradição", garantem a elegância do final da festa com peças de Tom Jobim, Pixinguinha e Cartola, dentre muitos outros.

Programação

As apresentações da segunda noite do Festival de Choro e Jazz de Jericoacoara fica a cargo do "Trio Curupira", também de São Paulo, formado pelos jovens instrumentistas André Marques, Ricardo Zohyo e Cleber Almeida. Às 23h, ninguém menos que o cearense Manassés, dará o ar da graça no palco montado na Rua Principal.

Na quarta-feira, o acordeonista francês Richard Galliano, vem mostrar sua música globalizada que mescla tango argentino e jazz. Logo após, os irmãos Rudi y Nini Flores, vêm compartilhar o Chamamé, ritmo da província de Corrientes, na Argentina, lugar onde nasceram. Os "hermanos" contarão com a participação especial do gaúcho da fronteira e acordeonista, Luiz Carlos Borges.

Os dois últimos dias serão especiais. Na quinta-feira, 3, o maestro baiano Dori Caymmi chega para lançar seu mais recente CD, "Mundo de Dentro" e divide o palco com o paulistano Renato Braz. Ainda nessa noite, a cantora Joyce Moreno, relança o CD "Feminina", um marco na carreira da intérprete que traz, dentre outras canções, a inesquecível "Clareana", finalista do Festival MPB-80 e que, em 2010, completa 30 anos de lançamento.

A apresentação da diva terá participação especial do violonista carioca Théo de Barros. No sábado, o Festival de Choro e Jazz de Jericoacoara recebe as estrelas de primeira grandeza Yamandú Costa e Hermeto Pascoal. O evento vai promover também oficinas, cujos horários e datas ainda não estão definidos. Agora é arrumar as malas, atravessar as dunas, garimpar um lugar para se hospedar e aproveitar a mistura de som e música proposta pelo Festival de Choro e Jazz.

Oficinas

Prática de Conjunto e Guitarra
Arismar do Espírito Santo

Violão
Maurício Carrilho

Violão
Alessandro Penezzi

Piano
André Marques

Composição
Celso Viáfora

Sax
Marcelo Bernardes

Panorama da MPB
Pedro Aragão

Flauta
Toninho Carrasqueira

Percussão
Cléber Almeida

Bateria
Márcio Bahia

MAIS INFORMAÇÕES

II Festival de Choro e Jazz de Jericoacoara, de 30 de novembro a 4 de dezembro, às 21h, na Praça Principal da Vila. Contato: (11) 8152.4387

NATERCIA ROCHA
Reportagem do Diário do Nordeste

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Debo confesar

Debo confesar y confieso...

que me distraigo con la facilidad de un recién nacido
que me desconcentro con el vuelo de un hada vestida de primavera
que por más que lo intento es como si no lo intentara...
que no puedo
que siempre encuentro una o doce excusas para no escribir
que pongo letras seguidas en un blog o en blogs de otros
todo todo y todo menos hacer lo que debo.

Incorregible

c'est moi


FONTE:http://hebuterne.blogspot.com

UMA RAPIDINHA

“Escribir es una forma de terapia. A veces me pregunto cómo se las arreglan los que no escriben, los que no componen música o pintan, para escapar de la locura, de la melancolía, del terror pánico inherente a la condición humana”

Graham Greene


FONTE:http://hebuterne.blogspot.com

ESPETÁCULO IMPERDÍVEL!!!

domingo, 28 de novembro de 2010

GUERRILHA VITORIOSA!!!

Nossos mais sinceros agradecimentos a todos e todas que colaboraram para o êxito da 2ª GUERRILHA DO ATO DRAMÁTICO CARIRIENSE. 

Beijos Brincantes!!!



GUERRILHA CARIRIENSE
Letra de Cacá Araújo / Música de Lifanco

A arte
que brota das veias guerreiras
resgata o passado, tempera o presente e alimenta o futuro

Guerrilha do amor, nação Cariri
teatro no palco, na rua, na arena
a canção, o folguedo, o circo e a dança
da vida e da alma do povo são chamas

A arte
que brota das veias guerreiras
resgata o passado, tempera o presente e alimenta o futuro

Guerrilha do amor, nação Cariri
no sol da batalha conquistando aplausos
atores, atrizes, brincantes, cantores
poetas do drama, do corpo e das cores

A arte
que brota das mãos guerrilheiras traz
amando e lutando, sorrindo e sonhando
a mensagem dos deuses em busca da paz

sábado, 27 de novembro de 2010

A INTERNET EM AQUARIUS

Luiz Domingos de Luna*

Outro dia fui convidado a retornar, ao meu planeta natal – Aquarius, como de sempre, peguei a nave e embarquei nem liguei mais para o processo de desintegração, matéria, energia, matéria escura, buracos negros, galáxias, quasares, velocidade, acelerador de partículas, motor de regressão de gravidade.
Como já estou acostumado com as mutações existenciais do universo paralelo, fiz desta vez uma viagem tranqüila e segura, vez estar desintegrado em íons imantados a um grande imã sem prejuízo molecular para minha reintegração material em Aquarius, ao entrar na nossa galáxia Atenas, nem ao som do ruído do redutor gravitacional me foi motivo de preocupação inicial á viagem.
Aos procedimentos, já bastante expostos na série aquarianos, fui convidado a participar da plenária. O Tema: A Instalação de uma torre de transmissão da internet em Aquarius, eu já fui ficando alegre, pois estas viagens sempre são cansativas e desgastantes, assim em futuro breve a minha comunicação com os aquarianos seria confortavelmente on line sem prejuízo para os altíssimos gastos com a minha trajetória - Terra Aquarius – Aquarius Terra.
O Projetista foi logo dizendo, nós temos sérios problemas para esta transmissão, primeiro: a densidade da atmosfera terrestre é muito alta, segundo: o campo gravitacional terrestre é muito forte, além do fato da inconstância climática ser de uma variedade muito intensa para a nossa preciosa tecnologia. Vez que, um raio na terra, poderia desencadear uma ruptura em toda a rede de computadores, vez que a transmissão da matéria escura para a matéria não escura cria um campo gravitacional que, em se tratando da terra, teria que se fazer um refluxo, sairia assim, um problema para os terráqueos e criariam inúmeros para os Aquarianos.
Depois de um debate enriquecedor entre o calculador de potencia e o revisor gravitacional, o seqüenciar de ondas pediu a palavra e disse: Em alto e bom tom: Pelos relatórios consta que uma comunicação entre Terra e Marte para compreensão duraria mais de 72 horas, vez a velocidade de o som ser ainda muito lenta.
Aquarius fica a uma distancia mil vezes superior/ a terra marte/ logo o projeto deveria ser abortado. O Filósofo aquariano pediu a palavra e perguntou quem forneceu aqueles dados/ são dados dos terrestres:/ O Filosofo riu, e disse: realmente vocês têm razão, mas tem um probleminha – Perguntei – Qual? O Sábio Aquariano respondeu vocês querem uma comunicação regressiva de 100o anos, ou em tempo real? A Emoção tomou de conta, se bem que em Aquarius não existe emoção, todos gritaram: em tempo real - O filosofo queridos aquarianos: em Aquarius o tempo real não existe- O Silencio tomou conta de todos nós.
Série: Aquarianos
Texto: Lendas Futuras
Luiz Domingos de Luna
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CARIRI É BRASIL

Brincantes do Reisado Infantil Mestre Dedé de Luna - Crato-CE-Brasil (Foto de Júlio César)

O fortalecimento da cultura popular como fator de identidade e desenvolvimento regional no sentido de favorecer a qualidade de vida de mestres, brincantes e artistas populares, a partir de suas comunidades e da valorização da memória e do folclore como temperos da auto-estima e do redescobrimento de nossas origens, passa necessariamente por um amplo investimento no turismo cultural, e, de certo modo, pela “desespetacularização”  dos folguedos, promovendo distritos, vilas e bairros como destinos turísticos, seja o receptivo para o país e o mundo, seja o de mobilização interna, dotando-lhes de infra-estrutura adequada e gerando oportunidades de ocupação, renda e estímulo à transmissão do saber popular aos mais jovens.

Deve-se entender como sagrado o financiamento da manutenção de nossa identidade cultural representada pelos grupos folclóricos e outras manifestações da cultura imaterial, principalmente através de políticas de fomento e fortalecimento de instituições culturais sérias. Faz-se necessária uma grande cruzada em benefício da divulgação, da informação, da educação. Nós precisamos voltar a reconhecer nosso próprio rosto. Para isso é fundamental que nos vejamos também na televisão, nos cinemas, nos teatros, nos jornais, nas revistas, nas escolas, nas praças, nos ouçamos nas rádios e nos encontremos nos grandes eventos postados nos palcos principais. Temos, por outro lado, que ter assegurada a sobrevivência material dos nossos brincantes, através da adoção de medidas em favor do trabalho, seja no campo, seja na indústria ou em outra frente, o que os deixará livres para preservar e difundir seus saberes em situação de dignidade humana. 

No Cariri é onde reside a alma do Ceará. Os principais elementos culturais formadores da identidade cearense, nordestina e nacional estão presentes em nossa região, vivos e pulsantes. Inquietos e indômitos. Aqui se plantou e ainda brota a ancestralidade ibérica, ameríndia e africana, caldeada através dos séculos, fundida pela força da história.

Portanto, cada gesto, saber ou fazer tradicional tem profundidade universal. É também argamassa para a elaboração da contemporaneidade. Folguedos, religiosidade, história, culinária, mitos, lendas, enfim, nossos saberes e fazeres contribuem significativamente para manter vivo o corpo cearense. A cultura popular caririense, costumo dizer, é um conjunto de antropologia sociocultural que nos revela em nossa mais profunda e remota história; é também a manifestação do espírito brincante, religioso, profano e criativo do Brasil. 

Cacá Araújo
Professor, ator, dramaturgo e folclorista
Diretor da Cia. Cearense de Teatro Brincante













Reisado Mestre Dedé de Luna (Crato-Cariri-Ceará-Brasil)
Fotos de Júlio César

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A triste Partida

Meu Deus, meu Deus
Setembro passou
Outubro e Novembro
Já tamo em Dezembro
Meu Deus, que é de nós,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, ai
A treze do mês
Ele fez experiênça
Perdeu sua crença
Nas pedras de sal,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal
Ai, ai, ai, ai
Rompeu-se o Natal
Porém barra não veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito além
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois barra não tem
Ai, ai, ai, ai
Sem chuva na terra
Descamba Janeiro,
Depois fevereiro
E o mesmo verão
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: "isso é castigo
não chove mais não"
Ai, ai, ai, ai
Apela pra Março
Que é o mês preferido
Do santo querido
Sinhô São José
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé
Ai, ai, ai, ai
Agora pensando
Ele segue outra tria
Chamando a famia
Começa a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nóis vamo a São Paulo
Viver ou morrer
Ai, ai, ai, ai
Nóis vamo a São Paulo
Que a coisa tá feia
Por terras alheia
Nós vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Ai pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar
Ai, ai, ai, ai
E vende seu burro
Jumento e o cavalo
Inté mesmo o galo
Venderam também
Meu Deus, meu Deus
Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem
Ai, ai, ai, ai
Em um caminhão
Ele joga a famia
Chegou o triste dia
Já vai viajar
Meu Deus, meu Deus
A seca terrívi
Que tudo devora
Ai,lhe bota pra fora
Da terra natal
Ai, ai, ai, ai
O carro já corre
No topo da serra
Oiando pra terra
Seu berço, seu lar
Meu Deus, meu Deus
Aquele nortista
Partido de pena
De longe acena
Adeus meu lugar
Ai, ai, ai, ai
No dia seguinte
Já tudo enfadado
E o carro embalado
Veloz a correr
Meu Deus, meu Deus
Tão triste, coitado
Falando saudoso
Com seu filho choroso
Iscrama a dizer
Ai, ai, ai, ai
De pena e saudade
Papai sei que morro
Meu pobre cachorro
Quem dá de comer?
Meu Deus, meu Deus
Já outro pergunta
Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato
Mimi vai morrer
Ai, ai, ai, ai
E a linda pequena
Tremendo de medo
"Mamãe, meus brinquedo
Meu pé de fulô?"
Meu Deus, meu Deus
Meu pé de roseira
Coitado, ele seca
E minha boneca
Também lá ficou
Ai, ai, ai, ai
E assim vão deixando
Com choro e gemido
Do berço querido
Céu lindo e azul
Meu Deus, meu Deus
O pai, pesaroso
Nos fio pensando
E o carro rodando
Na estrada do Sul
Ai, ai, ai, ai
Chegaram em São Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Percura um patrão
Meu Deus, meu Deus
Só vê cara estranha
De estranha gente
Tudo é diferente
Do caro torrão
Ai, ai, ai, ai
Trabaia dois ano,
Três ano e mais ano
E sempre nos prano
De um dia vortar
Meu Deus, meu Deus
Mas nunca ele pode
Só vive devendo
E assim vai sofrendo
É sofrer sem parar
Ai, ai, ai, ai
Se arguma notíça
Das banda do norte
Tem ele por sorte
O gosto de ouvir
Meu Deus, meu Deus
Lhe bate no peito
Saudade de móio
E as água nos óio
Começa a cair
Ai, ai, ai, ai
Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patrão
Meu Deus, meu Deus
O tempo rolando
Vai dia e vem dia
E aquela famia
Não vorta mais não
Ai, ai, ai, ai
Distante da terra
Tão seca mas boa
Exposto à garoa
A lama e o paú
Meu Deus, meu Deus
Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo
No Norte e no Sul

Seu Lunga



Um dos personagens mais populares dos cordéis da atualidade é o Seu Lunga, de Juazeiro do Norte, sempre com suas respostas afiadas para quem lhe faz pergunta besta. Encontrei esse cordel de Ismael Gaião em sua coluna COLCHA DE RETALHOS, do Jornal da Besta Fubana e trouxe para este Mundo Cordel:


SEU LUNGA, tolerância zero
Ismael Gaião

Eu vou falar de Seu Lunga
Um cabra muito sincero,
Que não tolera burrice
Nem gosta de lero-lero.
Tem sempre boas maneiras,
Mas se perguntam besteiras,
Sua tolerância é zero!

Ao entrar num restaurante
Logo depois de sentar,
Um garçom lhe perguntou:
O Senhor vai almoçar?
Lunga disse: não Senhor!
Chame o padre, por favor,
Vim aqui me confessar.

Lunga tava na parada
Com Renata perto dele.
Esse ônibus vai pra praia?
Ela perguntou a ele.
Ele, então, disse à mulher:
- Só se a Senhora tiver
Um biquini que dê nele!

Seu Lunga tava pescando
E alguém lhe perguntou:
- Você gosta de pescar?
Ele logo retrucou:
- Como você pode ver,
Eu vim pescar sem querer,
A polícia me obrigou.

Pagando contas no Banco

Lunga viveu um dilema
Pois com um talão nas mãos,
Ouviu de Pedro Jurema:
O Senhor vai usar cheque?
- Ele disse: não, moleque,
Vou escrever um poema.

Em sua sucataria
Alguém tava escolhendo,
- Por quanto o Senhor me dá,
Essa lata com remendo?
Lunga, sem pestanejar,
Disse: não posso lhe dar,
Porque eu estou vendendo.

E ainda muito irritado
A seu freguês respondeu:
Tudo que eu tenho aqui,
Eu vendo porque é meu.
Pois se o Senhor quiser ver,
Coisas sem ser pra vender,
Vá visitar um museu.

Lunga foi comprar sapato
Na loja de Barnabé
E um rapaz bem gentil
Perguntou: é pra seu pé?
Ele disse: não esqueça,
Bote na minha cabeça,
Vou usar como boné.

Lunga carregava leite
Numa garrafa tampada
E um velho lhe perguntou:
Bebe leite, camarada?
Ele disse: bebo não!
Depois derramou no chão.
- Eu vou lavar a calçada.

Seu Lunga tava deitado
Na cama, sem se mexer.
E um amigo idiota
Perguntou, a lhe bater:
- O senhor está dormindo?
Lunga disse: tô fingindo
E treinando pra morrer!

Seu Lunga foi a um banco
Com um cheque pra trocar
Um caixa muito imbecil
Achou de lhe perguntar:
O Senhor quer em dinheiro?
- Não quero não, companheiro,
Quero em bolas de bilhar.

Lunga olhou pro relógio
Na frente de Gabriela,
Quando menos esperava,
Ouviu a pergunta dela:
- Lunga viu que horas são?
Ele disse: não, vi não,
Olhei pra ver a novela!

Seu Lunga comprava esporas
Para correr argolinha
E o vendedor idiota
Fez essa perguntazinha:
- É pra usar no cavalo?
- É não, eu uso no galo,
Monto e dou uma voltinha.

Seu Lunga tava pescando
Quando chegou Viriato
- Perguntando: aqui dá peixe?
Lunga disse: isso é boato!
No rio só dá tatu,
Paca, cutia e teju,
Peixe dá dentro do mato.

Lunga foi se consultar
Com um Doutor que era Crente
Esse logo perguntou:
- O Senhor está doente?
- Lunga disse: não Senhor,
Vim convidar o Doutor,
Para tomar aguardente.

Seu Lunga, com seu cachorro,
Saiu para caminhar
E um besta lhe perguntou:
É seu cão, vai passear?
Lunga sofreu um abalo,
Disse: não, é um cavalo,
Vou levá-lo pra montar.

Lunga trazia da feira,
Já em ponto de tratar,
Uma cabeça de porco,
Quando ouviu alguém falar:
- Vai levando pra comer?
Ele só fez responder:
- Vou levando pra criar!

Lunga foi à eletrônica
Com um som pra consertar
Lá ouviu um idiota
Sem demora, perguntar:
- O seu som está quebrado?
- Tá não, está estressado.
Eu trouxe pra passear.

Seu Lunga foi numa loja
Lá perto de Itaqui
- Tem veneno pra rato?
- Temos o melhor daqui.
Vai levá-lo? Está barato.
- Vou não, vou buscar o rato
Para vim comer aqui!

Seu Lunga tava bebendo,
Quando escutou de Tião:
- Já que faltou energia,
Nós vamos fechar irmão!
Lunga falou: que desgraça!
Eu vim pra tomar cachaça,
Não foi tomar choque não!

Lunga tava em sua loja
Numa preguiça profunda
Quando escutou a pergunta
Vindo de Dona Raimunda:
- O Senhor tem meia-calça?
- Isso em você não realça,
Ou você, tem meia bunda?

Lunga saiu pra pescar,
Quando um amigo encontrou.
Depois de cumprimentá-lo
Seu amigo perguntou:
Lunga vai à pescaria?
Seu Lunga só disse: ia.
Pegou a vara e quebrou.

Jacó estava querendo
Apostar numa milhar
Vendo Lunga numa banca
Disse: agora vou jogar!
E foi gritando dali:
- Lunga, passa bicho aqui?
- Passa sim! Pode passar.

Seu Lunga sentia dor
Procurou Doutor Ramon
Que começou a consulta
Já perguntando em bom tom:
Seu Lunga, qual o seu plano?
Lunga disse: sem engano,
O meu plano é ficar bom!

Lunga tava em seu comércio
Despachando a Zé Lulu
Que depois de escolher
A fava e o feijão guandu.
- Disse: vou levar fubá.
E o arroz como está?
Seu Lunga disse: Tá cru!

Lunga com uma galinha
E a faca pra cortar,
Seu vizinho perguntou:
Oh! Seu Lunga, vai matar?
Com essa pergunta burra,
Disse: não, vou dar uma surra,
Logo depois vou soltar.

Lunga indo a um enterro
Encontrou Zeca Passivo
- Seu Lunga pra onde vai?
Ao enterro de Biu Ivo.
- E Seu Biu Ivo morreu?
- Não, isso é engano seu,
Vão enterrar ele vivo!

Lunga mostrou um relógio
Ao filho de Biu Romão
- Posso botar dentro d’água?
Perguntou o garotão.
Lunga disse sem demora:
- Relógio é pra ver a hora,
Não é sabonete, não!

Lunga fez uma viagem
Pra cidade de Belém
E quando voltou pra casa
Escutou essa de alguém:
- Oh! Seu Lunga, já chegou?
- Eu não, você se enganou,
Chego semana que vem!

Lunga levou uma queda
De cima de seu balcão
- Quer tomar um pouco d’água?
Perguntou o seu irmão.
Lunga logo, respondeu:
Foi só uma queda, meu!
Eu não comi doce não!
Na porta do elevador
Esperando ele chegar
Seu Lunga escutou um besta
Pro seu lado perguntar:
- Vai subir nesse momento?
- Não, que meu apartamento,
Vai descer pra me pegar.

Se encontrar com Seu Lunga
Converse, mas com cuidado,
Pois ele pode ser grosso,
Mesmo sendo educado.
Eu já fiz o meu papel,
Escrevendo este cordel
Pra você ficar ligado!


Fonte: http://culturanordestina.blogspot.com/

O jornalismo desonesto e o mito do “crime organizado”. Por Gustavo Barreto

O “Jornal da Globo” fechou com chave de ouro o dia de uma emissora empenhada em assustar e desinformar o público, enquanto outras emissoras e rádios acompanharam a tática do pânico. A velha técnica do “Mantenham a calma” seguido de imagens impactantes da violência no Rio de Janeiro é a melhor forma, do ponto de vista da cultura do medo que tenta se impor, de pôr em ação esse objetivo. É como você dizer “Fique à vontade” quando recebe alguém pouco conhecido em sua casa, provocando o efeito contrário. Neste caso é bem pior: trata-se do imaginário social de um conjunto de milhões de brasileiros que está em jogo. E neste caso há consequências políticas.
Não há dúvidas de que  o índice de criminalidade no Rio é muito alto, inaceitável, e que  a lógica que rege o projeto da polícia comunitária, que esse governo chama da “UPP” e que outros governos já tentaram com outros nomes, é um bom caminho, desde que proponha de fato a participação da comunidade no processo decisório e que seja mais amplo. Atualmente é um conjunto de projetos-piloto.
No entanto, estratégias diversas estão em jogo. A saber:
A. O Governo do Estado, principalmente por meio do governador Sergio Cabral, tenta capitalizar a crise politicamente. Aparece como o “líder destemido” que as pessoas assustadas das classes A e B exigem nessa hora. Ao mesmo tempo, desvia a atenção da plena incompetência do governo nas áreas de educação e saúde – incluindo a recente busca e apreensão na casa de Cesar Romero, o ex-subsecretário-executivo de Saúde, primo da mulher do secretário Sérgio Côrtes e braço direito dele na secretaria. A acusação: fraude em licitação ao contratar manutenção de ambulâncias superfaturada em mais de 1.000%;
B. Setores mais violentos da Polícia Militar – a banda podre que não quer saber de papo de UPP – ganham carta branca, por conta do clima de medo, para fazer suas velhas e conhecidas “incursões” nas favelas, a política burra do confronto com o “crime organizado”, vitimando cidadãos inocentes e realizando execuções sumárias de suspeitos. O Secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, chama isso de “efeito colateral”, enquanto jornalistas passam uma coletiva de imprensa inteira perguntando apenas por “números” e trajetos da PM e do BOPE;
C. Os principais chefes da Polícia Militar do Rio de Janeiro e a Secretaria de Segurança Pública vendem a tese deplorável de que os atentados são uma “reação às políticas das UPPs”, e a velha mídia simplesmente engole. O curioso é que as UPPs estão presentes em 13 favelas, de um universo de 1.000 existentes no Rio e região metropolitana. Imagina quando chegarem a 20, 30! Melhor mudar para Miami de uma vez;
D. A mídia cria uma dinâmica do medo a partir de absurdos sociológicos, como afirmar que o “crime organizado” atual surgiu do encontro entre presos comuns e presos políticos nos anos 70 (tentando vincular militantes de esquerda a traficantes de drogas); separar a cidade em esquemas tipos “eles-nós”, como fez Arnaldo Jabor, ao afirmar que “é preciso apoio da população, principalmente da Zona Sul, pois a periferia já mora dentro da violência” (JG, 24/11/2010) e até mesmo mentir descaradamente, afirmando por exemplo que os “índices de criminalidade estão estagnados no Rio” (editorial de William Waack), o que é mentira, conforme atesta até mesmo um dos maiores críticos do Governo do Estado, o sociólogo Ignácio Cano. Pouco importa para o jornalismo desonesto: o que está em questão é reafirmar o discurso vazio do “A que ponto chegamos!” e o elogio ao “endurecimento” das leis e das ações vingativas, como forma de alívio do medo criado. Não adianta nada, conforme apontou este seminário (em especial a fala do Coordenador do Núcleo de Presos da Polinter no Estado do Rio de Janeiro, o delegado da Polícia Civil, Orlando Zaccone).
A "polícia comunitária" do Rio de Janeiro, conhecida como UPP, tem coincidentemente um caminho parecido com o das rotas dos grandes eventos internacionais que se aproximam.
A "polícia comunitária" do Rio de Janeiro, conhecida como UPP, tem coincidentemente um caminho parecido com o das rotas dos grandes eventos internacionais que se aproximam.

Os interesses, portanto, são complexos tal como os nossos problemas. A Zona Sul (parte dela, aquela à qual o Jabor se refere e da qual faz parte) está tão assustada que não consegue raciocinar. Milhares de pessoas são executadas todo ano no Rio de Janeiro, dados absolutamente grotescos. A cobertura é a mesma? Não. “As pessoas lidam com insegurança no Rio de forma cíclica e dramática. Para conviver com o alto nível de violência na cidade, tratam como se ela não existisse. Mas, então, surge um evento de grande repercussão e vira uma pauta central na cidade, todos discutem, é uma grande catarse”, aponta Ignácio Cano. “Sensação de segurança pública é muito diferente da efetiva segurança”, completa o deputado Marcelo Freixo.
Se fosse de fato uma preocupação, pararia para ler o relatório da CPI das Milícias, concluído no dia 10 de dezembro de 2008. Contém o mapa das milícias, seu funcionamento, seus braços econômicos, a relação do braço político com o braço econômico e o domínio de território. Enquanto as Nações Unidas calculam que o narcotráfico rende 200 mil dólares por minuto, só no domínio das vans no Rio de Janeiro, uma das milícias faturava 170 mil reais por dia. Este é apenas um exemplo.
Crime organizado, portanto, é isso: um negócio bem organizado. O que torna o crime “organizado” é sua capacidade de se organizar, e não de reagir violentamente. “Em qualquer lugar do mundo, o crime organizado está sempre dentro do Estado, e não fora”, aponta o deputado Marcelo Freixo, que relata sua dificuldade quando tentou instituir a referida CPI neste depoimento.
O pior é que o número de milícias é, hoje, maior do que em 2008. “O número de territórios dominados por milícias hoje é maior do que o número de territórios dominados pelo varejo da droga”, comenta Freixo. “Eu estranho o silêncio desse governo em relação às milícias, dizendo que o Rio está pacificado, diante do crescimento das milícias”.
E o poder público tampouco ajuda. O relatório foi entregue pelos membros da CPI nas mãos do prefeito Eduardo Paes. Solicitaram, por exemplo, que a licitação das vans fosse feita individualmente e não por cooperativas. “O prefeito acaba de fazer licitação por cooperativas e não individualmente”, denunciou Freixo.
Outro fator que aponta o descaso do poder público é o descaso com os serviços sociais que deveriam acompanhar o processo de “pacificação”. “Eu estive no Chapéu Mangueira e na Babilônia. Além da polícia, não há lá qualquer braço do Estado. A creche mal funciona, com o salário atrasado das professoras, o que a Prefeitura não assume. O posto de saúde não tem nenhum médico, nenhum dentista da rede pública do Estado. É mais uma vez a lógica exclusiva da polícia nas favelas – e somente a polícia”, afirmou. O projeto das UPPs está traçando um caminho bem delimitado: setor hoteleiro da Zona Sul, entorno do Maracanã, Zona Portuária e a Cidade de Deus, “única área dominada pelo tráfico em toda Jacarepaguá, que tem o domínio hegemônico das milícias”.
Danem-se as demais regiões que, como ressaltou Jabor, “já moram dentro da violência”.
Uma questão social, de classe
Para quem ainda acha que as questões de classe acabaram, basta comparar a forma como os diversos crimes em nossa sociedade são enfrentados. Para combater crimes financeiros (quando se combate), ninguém entra em agências bancárias rendendo as pessoas e atirando. Nas favelas, áreas com assentamentos humanos extremamente degradados, é diferente.
Um dos “efeitos colaterais”, na expressão de Beltrame, é a estudante Rosângela Alves, de 14 anos. Seu pai Roberto Alves, ironizou a presença dos policiais militares na unidade de saúde com aplausos: “Parabéns a vocês. Parabéns, Beltrame, parabéns, Cabral. Olha o que vocês conseguiram com isso! Matar uma menina que estava em casa! Sabe o que vocês conseguem com essas operações: matar pobres”. Sem conseguir sair de casa por causa do intenso tiroteio, a mãe da menina, Thereza Cristina Barbosa, acusou em relato ao jornal O Dia a polícia de ter disparado o tiro que matou sua filha. “O tiro que atingiu minha casa partiu de baixo para cima. Minha filha está morta, e eu sequer consigo velar o corpo dela”, lamentou ela, por telefone. (Leia aqui e aqui)
Como já apontei, o narcotráfico é um negócio como qualquer outro. E rende bastante: dados conservadores das Nações Unidas estimam que o rendimento líquido é de US$ 400 bilhões ano. Um “freela” para se queimar um carro custa entre R$ 200 e R$ 400. “Falo em ‘varejo de drogas’ na favela, e não de traficantes”, reafirma Freixo, apontando que a ponta do sistema – o 1% que está na favela – não tem projeto de poder e qualquer noção de organização criminal, como apontei. “Nunca participaram de juventude católica, de grêmio estudantil, nunca tiveram qualquer noção de coletividade. Sabe quantas escolas públicas existem no Complexo do Alemão? Duas”.
Conforme afirmou até mesmo um capitão e um dos fundadores do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) – um grupo de policiais fascistas que acreditam que executar sumariamente é uma prática normal, conforme não escondem mesmo em declarações públicas – em uma entrevista hoje (25/11) pela manhã na TV Record: “Os Batalhões da PM não possuem estrutura mínima de inteligência para operar”.
Marcelo Freixo, deputado que trata da segurança há muito tempo, amplia a crítica e denuncia: "Sabe quantas escolas públicas existem no Complexo do Alemão? Duas"
Marcelo Freixo, deputado que trata da segurança há muito tempo, amplia a crítica e denuncia: "Sabe quantas escolas públicas existem no Complexo do Alemão? Duas"
O deputado Marcelo Freixo deu uma entrevista nesta quinta-feira (25/11) na GloboNews afirmando o óbvio: o número de pessoas portando fuzis não chega a 1% dos moradores. Ele costuma ironizar: “Eu gostaria que no parlamento fosse a mesma coisa: menos de 1% envolvido com o crime. Infelizmente não é assim, mas na favela é”. A polícia tem que agir com responsabilidade diante destes cidadãos. Enquanto isso telespectadores igualmente fascistas comentam pela internet: “Tem que entrar mesmo e enfrentá-los”. De quem estamos falando?
Freixo, focado na solução do problema, lembra: “Armas não são produzidas nas favelas. Eles vieram de algum lugar. Quantas ações policiais foram feitas na Baía de Guanabara? Quantas foram realizadas no Porto? Eu não me lembro de nenhuma”. É uma constatação que deixa todos os “notáveis” comentadores políticos envergonhados, pois só sabem falar abobrinhas sobre a “coragem” dos policiais em “enfrentar” o crime organizado. Estão focados na política burra do confronto.
Freixo lembrou ainda, na entrevista de hoje, que essas áreas pertencem ao tráfico de drogas. A área das milícias, conforme descrito anteriormente neste artigo, não foram tocadas – e tão somente por isso não estão reagindo. “Vamos lembrar que esses eventos já aconteceram próximo ao réveillon de 2006. O problema não é esse. A questão é que o setor de inteligência no Rio de Janeiro é muito falho. Para constatar isso basta visitar a DRACO [Delegacia de Repressão ao Crime Organizado da Polícia Civil do Rio de Janeiro]”, concluiu Freixo.
Agora, muito pertinentemente alguém poderia se perguntar: e os movimentos sociais nisso tudo? Eles não possuem meios para se comunicar, portanto não fazem parte do cenário político. É tão simples quanto é trágico.
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@gustavobarreto_(*) Gustavo Barreto, jornalista. Contato pelo @gustavobarreto_. Atualizado em
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