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terça-feira, 29 de março de 2011

Tradição Revisitada!

Com mais de 100 gravuras, a exposição "Xilogravura Nordestina" sintetiza cinco décadas da arte da xilografia na Região Nordeste do Brasil

fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=954736 

Obra de mestre Noza: clássico da xilogravura, presente na exposição do Memorial da Cultura Cearense
 
Resultado de uma longa pesquisa do artista plástico, compositor e escritor Bené Fonteles, a exposição "Xilogravura Nordestina" será aberta amanhã, no Memorial da Cultura Cearense. A mostra rememora as últimas cinco décadas da xilografia na Região, por meio de mais de 100 obras de artistas pioneiros e contemporâneos.

A ideia é mostrar aos próprios cearenses - e, posteriormente, ao público de outros estados - toda a riqueza estética e o vasto universo cultural que marca a xilografia nordestina. Para isso, a exposição resgata trabalhos desde a década de 60, a exemplo de Mestre Noza (Juazeiro do Norte), primeiro xilogravador a ser conhecido no Brasil e no exterior.

Noza foi pioneiro na questão de popularizar a técnica, ao trabalhar por encomenda para a Tipografia São Francisco, que desde os anos de 1930 era a mais importante editora e impressora do Cariri. A gráfica foi rebatizada pelo poeta Patativa do Assaré com o nome de Lira Nordestina, tornando-se por muito tempo a mais tradicional editora de cordel do País.

"Desde os anos 80 pesquiso sobre a xilogravura. Estou produzindo um livro sobre o assunto, que será lançado até o final deste ano" revela o curador Bené Fonteles. "90% das obras que compõem a mostra são da minha coleção, voltada aos artistas mais antigos - como, por exemplo, os de Juazeiro e do Crato, dois celeiros de talentos. Outro destaque é J. Borges, de Bezerros (PE), grande gravador pernambucanos".

Segundo Fonteles, a afinidade com xilogravura há muito faz-se presente no seu trabalho. "Como artista plástico, sempre fui ligado à questão das artes gráficas. Nas décadas de 70 e 80 usava a máquina de xerox como um tipo de prensa de gravura contemporânea", recorda.

Ao todo, integram "Xilogravura Nordestina" mais de 30 artistas, de quase todos os estados da região (exceto Rio Grande do Norte e Piauí), distribuídas pelas duas galerias do Memorial. Entre os nomes estão mestres como Antônio Celestino, Arievaldo Viana, Expedito da Silva, Fracorli, Francisco de Almeida, Gilvan Samico, J. Borges, Cícero Lourenço, Mestre Noza, Nilo, Stênio Diniz (mestre da Cultura), entre outros.

"A ideia era fazer uma síntese da xilografia nordestina ao longo das últimas cinco décadas. Ao mesmo tempo, percebe-se a evolução na trajetória dos mestres, que vão depurando sua estética", esclarece Fonteles.

"Para mim, a edição não foi tão difícil, porque já tinha conhecimento do assunto. Mas havia alguns artistas contemporâneos no Ceará cujos trabalhos não conhecia, pois estou afastado do Estado há algum tempo. Em compensação, nos últimos dois anos entrei em contato com artistas de outros lugares, como Sergipe e Alagoas", destaca o pesquisador.

"A hora de editar tem suas complexidades. Na última hora surge a sugestão de alguém, um artista, um catálogo. A coisa vai crescendo e isso é que é legal na curadoria", observa Fonteles. Depois de Fortaleza, a exposição vai circular pelo Brasil, como uma espécie de prévia do lançamento do livro do curador. A mostra deve passar por Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Salvador e Recife.

Em Fortaleza, além das obras, haverá uma sala onde estará montada uma réplica de um pequeno ateliê de xilogravura. "Pelo vidro os visitantes poderão ver todo o material utilizado, como a prensa", orienta o curador. A exposição traz ainda as matrizes das imagens, para o público tocar, inclusive pessoas com deficiência visual.

Para Fonteles, o mais importante em "Xilogravura Nordestina" é compreender como os artistas "assimilaram" sua cultura, transformaram-na e recriaram-na por meio da xilografia. "Eles invadiram o imaginário popular, especialmente por meio do cordel, porque há algumas décadas a xilogravura era a única forma de o ´povão´ ter contato com suas próprias imagens, suas raízes", observa Fonteles.

Segundo o curador, foi somente depois de inspirar os intelectuais que o trabalho dos xilogravadores passou a ser valorizado. "Até hoje muitos não são conhecidos ou inseridos no mercados. As obras custam muito pouco. No Ceará temos bons pesquisadores, como Gilmar de Carvalho, uma sumidade no assunto. Mas a exposição junta todas as pontas da xilografia no Nordeste", ressalta Fonteles.

MAIS INFORMAÇÕES
Exposição Xilogravura Nordestina. De amanhã até 12 de junho, no Memorial da Cultura Cearense (Centro Dragão do Mar). Acesso livre. Nos dias 31/03 e 01/04, às 19h, haverá visitas guiadas com o curador Bené Fonteles e os artistas José Lourenço e João Pedro (Juazeiro do Norte). Contato: (85) 3488.8600

ADRIANA MARTINS/REPÓRTER

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Seu Lunga



Um dos personagens mais populares dos cordéis da atualidade é o Seu Lunga, de Juazeiro do Norte, sempre com suas respostas afiadas para quem lhe faz pergunta besta. Encontrei esse cordel de Ismael Gaião em sua coluna COLCHA DE RETALHOS, do Jornal da Besta Fubana e trouxe para este Mundo Cordel:


SEU LUNGA, tolerância zero
Ismael Gaião

Eu vou falar de Seu Lunga
Um cabra muito sincero,
Que não tolera burrice
Nem gosta de lero-lero.
Tem sempre boas maneiras,
Mas se perguntam besteiras,
Sua tolerância é zero!

Ao entrar num restaurante
Logo depois de sentar,
Um garçom lhe perguntou:
O Senhor vai almoçar?
Lunga disse: não Senhor!
Chame o padre, por favor,
Vim aqui me confessar.

Lunga tava na parada
Com Renata perto dele.
Esse ônibus vai pra praia?
Ela perguntou a ele.
Ele, então, disse à mulher:
- Só se a Senhora tiver
Um biquini que dê nele!

Seu Lunga tava pescando
E alguém lhe perguntou:
- Você gosta de pescar?
Ele logo retrucou:
- Como você pode ver,
Eu vim pescar sem querer,
A polícia me obrigou.

Pagando contas no Banco

Lunga viveu um dilema
Pois com um talão nas mãos,
Ouviu de Pedro Jurema:
O Senhor vai usar cheque?
- Ele disse: não, moleque,
Vou escrever um poema.

Em sua sucataria
Alguém tava escolhendo,
- Por quanto o Senhor me dá,
Essa lata com remendo?
Lunga, sem pestanejar,
Disse: não posso lhe dar,
Porque eu estou vendendo.

E ainda muito irritado
A seu freguês respondeu:
Tudo que eu tenho aqui,
Eu vendo porque é meu.
Pois se o Senhor quiser ver,
Coisas sem ser pra vender,
Vá visitar um museu.

Lunga foi comprar sapato
Na loja de Barnabé
E um rapaz bem gentil
Perguntou: é pra seu pé?
Ele disse: não esqueça,
Bote na minha cabeça,
Vou usar como boné.

Lunga carregava leite
Numa garrafa tampada
E um velho lhe perguntou:
Bebe leite, camarada?
Ele disse: bebo não!
Depois derramou no chão.
- Eu vou lavar a calçada.

Seu Lunga tava deitado
Na cama, sem se mexer.
E um amigo idiota
Perguntou, a lhe bater:
- O senhor está dormindo?
Lunga disse: tô fingindo
E treinando pra morrer!

Seu Lunga foi a um banco
Com um cheque pra trocar
Um caixa muito imbecil
Achou de lhe perguntar:
O Senhor quer em dinheiro?
- Não quero não, companheiro,
Quero em bolas de bilhar.

Lunga olhou pro relógio
Na frente de Gabriela,
Quando menos esperava,
Ouviu a pergunta dela:
- Lunga viu que horas são?
Ele disse: não, vi não,
Olhei pra ver a novela!

Seu Lunga comprava esporas
Para correr argolinha
E o vendedor idiota
Fez essa perguntazinha:
- É pra usar no cavalo?
- É não, eu uso no galo,
Monto e dou uma voltinha.

Seu Lunga tava pescando
Quando chegou Viriato
- Perguntando: aqui dá peixe?
Lunga disse: isso é boato!
No rio só dá tatu,
Paca, cutia e teju,
Peixe dá dentro do mato.

Lunga foi se consultar
Com um Doutor que era Crente
Esse logo perguntou:
- O Senhor está doente?
- Lunga disse: não Senhor,
Vim convidar o Doutor,
Para tomar aguardente.

Seu Lunga, com seu cachorro,
Saiu para caminhar
E um besta lhe perguntou:
É seu cão, vai passear?
Lunga sofreu um abalo,
Disse: não, é um cavalo,
Vou levá-lo pra montar.

Lunga trazia da feira,
Já em ponto de tratar,
Uma cabeça de porco,
Quando ouviu alguém falar:
- Vai levando pra comer?
Ele só fez responder:
- Vou levando pra criar!

Lunga foi à eletrônica
Com um som pra consertar
Lá ouviu um idiota
Sem demora, perguntar:
- O seu som está quebrado?
- Tá não, está estressado.
Eu trouxe pra passear.

Seu Lunga foi numa loja
Lá perto de Itaqui
- Tem veneno pra rato?
- Temos o melhor daqui.
Vai levá-lo? Está barato.
- Vou não, vou buscar o rato
Para vim comer aqui!

Seu Lunga tava bebendo,
Quando escutou de Tião:
- Já que faltou energia,
Nós vamos fechar irmão!
Lunga falou: que desgraça!
Eu vim pra tomar cachaça,
Não foi tomar choque não!

Lunga tava em sua loja
Numa preguiça profunda
Quando escutou a pergunta
Vindo de Dona Raimunda:
- O Senhor tem meia-calça?
- Isso em você não realça,
Ou você, tem meia bunda?

Lunga saiu pra pescar,
Quando um amigo encontrou.
Depois de cumprimentá-lo
Seu amigo perguntou:
Lunga vai à pescaria?
Seu Lunga só disse: ia.
Pegou a vara e quebrou.

Jacó estava querendo
Apostar numa milhar
Vendo Lunga numa banca
Disse: agora vou jogar!
E foi gritando dali:
- Lunga, passa bicho aqui?
- Passa sim! Pode passar.

Seu Lunga sentia dor
Procurou Doutor Ramon
Que começou a consulta
Já perguntando em bom tom:
Seu Lunga, qual o seu plano?
Lunga disse: sem engano,
O meu plano é ficar bom!

Lunga tava em seu comércio
Despachando a Zé Lulu
Que depois de escolher
A fava e o feijão guandu.
- Disse: vou levar fubá.
E o arroz como está?
Seu Lunga disse: Tá cru!

Lunga com uma galinha
E a faca pra cortar,
Seu vizinho perguntou:
Oh! Seu Lunga, vai matar?
Com essa pergunta burra,
Disse: não, vou dar uma surra,
Logo depois vou soltar.

Lunga indo a um enterro
Encontrou Zeca Passivo
- Seu Lunga pra onde vai?
Ao enterro de Biu Ivo.
- E Seu Biu Ivo morreu?
- Não, isso é engano seu,
Vão enterrar ele vivo!

Lunga mostrou um relógio
Ao filho de Biu Romão
- Posso botar dentro d’água?
Perguntou o garotão.
Lunga disse sem demora:
- Relógio é pra ver a hora,
Não é sabonete, não!

Lunga fez uma viagem
Pra cidade de Belém
E quando voltou pra casa
Escutou essa de alguém:
- Oh! Seu Lunga, já chegou?
- Eu não, você se enganou,
Chego semana que vem!

Lunga levou uma queda
De cima de seu balcão
- Quer tomar um pouco d’água?
Perguntou o seu irmão.
Lunga logo, respondeu:
Foi só uma queda, meu!
Eu não comi doce não!
Na porta do elevador
Esperando ele chegar
Seu Lunga escutou um besta
Pro seu lado perguntar:
- Vai subir nesse momento?
- Não, que meu apartamento,
Vai descer pra me pegar.

Se encontrar com Seu Lunga
Converse, mas com cuidado,
Pois ele pode ser grosso,
Mesmo sendo educado.
Eu já fiz o meu papel,
Escrevendo este cordel
Pra você ficar ligado!


Fonte: http://culturanordestina.blogspot.com/

domingo, 14 de novembro de 2010

Cordel é expressão viva da cultura nordestina! Por: Antônio Vicelmo

o contrário do que se pensava, a tradição do cordel continua viva, e revela talentos raros preservados no interior

Crato. A cultura popular é um magnífico tesouro que brota da alma da nação nordestina. Abrange um elenco de manifestações que fazem parte do cotidiano do sertanejo que guarda no peito um verdadeiro relicário de valores expressivos, que vão se perpetuando pelas gerações, e alimentando a memória viva da nação. Uma das maiores expressões dessa cultura é a literatura de cordel, que enche de poesia os terreiros das casas sertanejas e, também, as feiras livres do interior.

O cordelista é um representante do povo, o repórter dos acontecimentos da vida no Nordeste do Brasil. Não há limite na escolha dos temas para a criação de um folheto. Pode narrar desde os feitos de Lampião, com até as "presepadas" de heróis como João Grilo ou Cancão de Fogo, uma história de amor ou acontecimentos importantes de interesse público.

A literatura de cordel é assim chamada, segundo pesquisa da Fundação Joaquim Nabuco, pela forma como são vendidos os folhetos, dependurados em barbantes (cordão), nas feiras, mercados, praças e bancas de jornal, principalmente das cidades do interior e nos subúrbios das grandes cidades.

Linguajar
Devido ao linguajar despreocupado, regionalizado e informal utilizado para a composição dos textos, essa modalidade de literatura nem sempre foi respeitada, e já houve até quem declarasse a morte do cordel. Ao contrário do que se previa, o cordel ganhou o mundo.

Os versos do Patativa do Assaré, por exemplo, passaram a ser estudados na Universidade de Sorbonne, na França. Os violeiros de ontem que eram vistos com certo preconceito, ganharam as ruas, as universidades e os teatros.

Ao longo deste tempo, além de mudanças temáticas, o cordel passa também por várias transformações no plano da forma. Nas capas, anteriormente ilustradas com clichês utilizados em jornais e revistas, passa-se a empregar cartões postais, fotografias de artistas de cinema, desenhos e xilogravuras.

Outros elementos tomados de empréstimo da imprensa escrita foram abandonados como, por exemplo, a divisão, seguindo o estilo dos folhetins, de uma mesma história em três diferentes folhetos. As histórias, por sua vez, diminuem de tamanho passando a predominar os folhetos de 8 ou 16 páginas sobre os de 32 ou 64 páginas.

Pesquisa
Acompanhando o processo de globalização e de abertura do modelo cultural, o cordel é estudado e pesquisado, com grande interesse, nos meios acadêmicos, debatido em ciclos literários e até mesmo em conferências mundiais.

De acordo com Ariano Suassuna, um estudioso do assunto, a literatura popular em versos do Nordeste brasileiro pode ser classificada nos seguintes ciclos: o heroico, o maravilhoso, o religioso ou moral, o satírico e o histórico. A região do Cariri, no Brasil, é o celeiro de grandes poetas cordelistas.

Entre os mais famosos podem ser citados os irmãos Bandeira (Pedro, João Chico e Daudeth Bandeiras), que aqui aportaram, trazendo na alma a fé no Padre Cícero e, no sangue, a veia poética do avô Manoel Galdino Bandeira, um dos maiores cantadores da viola do sertão paraibano.

Nas pegadas dos Bandeiras, surgiram outros valores que transformaram em poesias os programas de rádio das emissores caririenses, ou varando as madrugadas em desafios poéticos que ecoam nos pés de serra da região do Cariri.

"Com esta nova geração de poetas, a literatura popular está longe de desaparecer e continua aí para, talvez, ser uma primeira opção na luta pela difusão da leitura no Brasil", aposta o poeta João Bandeira de Caldas.

Jornalismo
O cordel tem uma estreita ligação com o jornalismo. Eram impressos nas mesmas impressoras dos jornais do passado. No início do século passado, quando os jornais não chegavam ao interior, o cordel ocupava o espaço dos jornais e emissoras de rádio. O cordelista era uma espécie de repórter itinerante que andava de feira em feira, levando à população os últimos acontecimentos da semana.

Notícia
Para que se tenha uma ideia dessa função jornalística, basta lembrar que, quando Getúlio Vargas morreu, um dos poetas de cordel mal ouviu a notícia pelo rádio, começou a escrever "A lamentável morte de Getúlio Vargas". Entregou os originais ao meio-dia e à tarde recebeu os primeiros exemplares. Vendeu 70 mil em 48 horas.

Outro assunto que teve grande repercussão foi "O trágico romance de Doca e Ângela Diniz". A "Carta do Satanás a Roberto Carlos" também teve grande sucesso, inspirado na música que dizia "E que tudo mais vá pro inferno!". Os folhetos de cordel tratam, de forma cômica e, de certa forma irônica, diversos temas como, por exemplo, seca, traição, violência, amor, desilusões, entre outros.

Comunicação
"Tem sido grande a procura por cordéis que hoje são encontrados em praças"
Eugênio Dantas
Presidente da Academia dos Cordelistas do Crato

"O cordel é o mais simples instrumento de comunicação o povão"
Luciano Carneiro
Poeta cordelista

"Nas vilas, os livretos no cordel davam a última notícia que percorria o sertão"
Josenir Lacerda
Poetisa cordelista

MAIS INFORMAÇÕES 
Academia dos Cordelistas do Crato. Praça Filemon Teles, em frente ao Parque de Exposições

(88) 3523.3947 / 3523.4442


Antônio VicelmoRepórter

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Antônio Higino inovou ao montar, numa kombi, a itinerante mercearia "Aplauso"e para o empréstimo de cordéis



 Ao lado da Kombi, o comerciante Antônio Higino vende mercadorias de acordo com a   quantidade que o cliente deseja comprar e ainda promove a cultura com empréstimo de cordéis
FOTO: ANTONIO VICELMO

Crato - Uma Kombi velha, caindo aos pedaços e portas trancadas com um ferrolho, foi transformada numa bodega e numa cordelteca volantes. A iniciativa é do comerciante Antonio Higino, ex-proprietário da Mercearia "Aplausos", que tem como apelo publicitário a frase "onde o ´lascado´ tem vez".

Ao mesmo tempo em que abastece o comércio da periferia do Crato com bombom, doce, bolacha, pipoca, refrigerante e outros produtos de baixo custo, Higino leva cultura popular aos pobres com o empréstimo gratuito de cordéis, a maioria de autores cratenses, integrantes da Academia dos Cordelistas do Crato.

Junto com a mercadoria, ele conduz quase mil cordéis numa caixa. O restante é pendurado em cordões amarrados na Kombi. Além da exposição dos cordéis, ele dispõe de todos os títulos disponíveis. O mais procurado deles, segundo afirma, é "O Linguajar Cearense" de autoria da poetisa Josenir Lacerda. O cordel lembra os termos usados pelos cearenses, conforme a autora define neste verso: "Quem muito agarra, abufela/Briga pequena é arenga/Enganação, esparrela/Toda prostituta é quenga/Rapapé é confusão/De repente é supetão/Insistência é lenga-lenga".

Para locação de um dos cordéis, não tem burocracia. Basta escolher e se comprometer a devolver o exemplar. "É uma forma de divulgar a cultura popular", diz o comerciante, esclarecendo que está juntando o útil ao agradável. "Ao mesmo tempo em que vende mercadorias, valoriza a cultura popular".

Higino conhece todos os moradores pelo nome. Para o cordelista Chico Nascimento, o gesto de Higino sensibiliza e emociona os autores dos cordéis, principalmente porque ele é uma pessoa simples que utiliza o seu tempo e até as suas parcas economias para manter viva uma tradição que nem sempre é reconhecida pelo poder público.

O sargento do Ronda do Quarteirão, Francisco Fábio Alves, conhecido por "Fabim", que reside na Rua da Grota, ao lado de Higino, diz que o trabalho do comerciante é uma contribuição para a construção da identidade cultural do Cariri, que vem sendo ameaçada pela modernidade que invade o sertão. O policial, que mantém um espaço na rua da Grota para exibição de grupos folclóricos, ressalta que Higino está prestando um serviço à comunidade.

Descrença

Quem não acredita nesse projeto é o pai de Higino, José Higino da Silva, conhecido por "Zezim", um aposentado proprietário de 18 casas pequenas no bairro. Silva diz que o filho está perdendo tempo e dinheiro. "O meu filho só pensa nos outros. Mesmo assim, como pai, estou do lado dele", afirma.

História

A história de Higino vem de longe. Começou em Salvador (BA), na década de 1980, onde ele trabalhava. Ele tentou comprar a metade de um frango para matar a fome. O proprietário da mercearia disse que só vendia o frango completo. Higino tomou uma decisão: "um dia eu vou montar uma venda para vender somente a quantidade que o freguês desejar.

O objetivo, segundo afirma, era atender aqueles que, como ele, são considerados "lascados" - conforme a expressão cearense para designar pessoas com baixo poder aquisitivo, isto é, enfrentam dificuldades.

Lascado

Quando voltou ao Crato, primeira providência foi abrir uma bodega com o nome "Aplausos", seguido do subtítulo "Onde o Lascado tem Vez". Ali, ele vendia tudo no rateio: uma colher de margarina, meio pacote de sal, 100 gramas de café, a metade de uma caixa de fósforos, enfim, a quantidade exigida pelo consumidor. Terminou entregando o comércio à mulher que, segundo afirma, não deu continuidade à filosofia de trabalho. Daí, Higino transformou-se num vendedor ambulante, transportando as mercadorias numa carrocinha. Depois comprou um fusca e agora está com uma Kombi. O sistema de venda é o mesmo: atender aos pequenos comerciantes que não têm condições de comprar grandes quantidades de mercadorias. Manteve na porta da Kombi o mesmo slogan.

Molambo

Além da venda, ele compra ou troca, em mercadorias, material reciclável como, por exemplo, caixas vazias de ovos e garrafas de vidro e de plástico. "Fazemos qualquer negócio para não voltar ´batendo´", diz Higino, referindo-se a voltar com a Kombi totalmente vazia e ainda acrescenta que este tipo de trabalho é prazeroso porque "divulgo a cultura popular e ainda ganho dinheiro para o sustento da família. É muita coisa para quem nasceu no sítio em Acopiara chamado ´Molambo´", finaliza.

ANTÔNIO VICELMORepórter

fonte:http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=824883

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Provocação de Vizinha


Com a Bíblia e um rosário
Procurei um reverendo
E fui logo lhe dizendo
Escute aqui Seu Vigário
Ao confessionário
Há muito tempo eu não vinha
Porque motivo eu não tinha
Mas agora um me atormenta
Homem fraco não aguenta
Provocação de vizinha

Eu não bebo, não namoro
Também não tenho complexo
Mas esssa história de sexo
Me perdoe, Padre, eu adoro!
E lá na rua que eu moro
Mora uma comadre minha
Do juízo de galinha
E a trazeira de jumenta
E homem fraco não aguenta
Provocação de vizinha

No altar da Santa Madre
Não nego os pecados meus
Seu Padre, eu pensava em Deus
Agora é só na comadre
Precisa ver Seu Padre
Como é que ela caminha
E no banco da pracinha
O jeito que ela se senta
E homem fraco não aguenta
Provocação de vizinha

A mulher é tão faceira
Que quando chega na praia
Tira a blusa, tira a saia
E se escorna numa cadeira
Uma perna em Mangabeira
Outra lá em Camboinha
E é nessa brincadeirinha
Que o caboclo se arrebenta
Homem fraco não aguenta
Provocação de vizinha

Entre as casas minha e dela
Há uma meia parede
E igual a um touro com sede
Ontem eu espiava ela
Ela chegou na janela
Esticou uma cordinha
E estendeu uma calcinha
Roçando na minha venta
Homem fraco não aguenta
Provocação de vizinha

O Padre ai perguntou:
- E ela tem as pernas grossas?
- Dão três ou quatro das nossas
Seu Vigário, já pensou?
A pele é um bibelô
Nunca nasceu uma espinha
Todos desejam a boquinha
Dos seus lábios de polenta
E homem fraco não aguenta
Provocação de vizinha

O padre fez um sorriso
E falou com água na boca:
Vou confessar essa louca
E vou com ela ao Paraíso
Diga a ela que eu preciso
Falar com ela a noitinha
Ela me espere sozinha
Que eu chego às doze e quarenta
Que homem fraco não aguenta
Provocação de vizinha

E você, seu deletério
Seu maniaco, tarado!
Vá rezar ajoelhado
No portão do cemitério
Pra cada santo um mistério
E uma salve rainha
E a cada ladainha
Acenda uma vela benta
Que depois você aguenta
Provocação de vizinha


Veja também:
O Plantador de Milho
(Daudeth Bandeira)
 
fonte:http://culturanordestina.blogspot.com

segunda-feira, 7 de junho de 2010

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Exposição O Nosso Borges

Exposição O Nosso BorgesMostra homenageia um dos grandes mestres das culturas populares em Recife

Será aberta nesta sexta-feira, dia 7 de maio, no Espaço da Cultura Popular do Recife, situado no Mercado de São José, a exposição O Nosso Borges. A mostra, apoiada pelo Ministério da Cultura, por meio da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural, é uma homenagem ao Mestre J. Borges, xilogravurista e cordelista brasileiro, e fica em cartaz até o dia 10 de julho.
José Francisco Borges nasceu em 1935, na cidade de Bezerros, agreste de Pernambuco, e começou a escrever cordel aos 29 anos. J. Borges, que já havia fabricado brinquedos artesanais, resolveu fazer, ele mesmo, as ilustrações dos mais de 200 livros de cordel usando a técnica de entalhar a madeira das matrizes. A exposição é composta por fotografias que contam a história do trabalho realizado pelo pernambucano, que também foi oleiro e começou a trabalhar com o pai, aos oito anos, como agricultor. O roteiro da mostra começa pelo primeiro cordel publicado com xilogravura, cunhada pelo artista, que tem como título O Verdadeiro Aviso de Frei Damião.
De acordo com a curadora da exposição, Fabiana Bruce, a escolha do local do evento, foi uma forma de levar J. Borges ao lugar, que além de ter sido muito frequentado pelo artista, foi tema dos seus trabalhos. “Queremos ainda provocar uma reflexão sobre o Mercado São José, local de muita efervescência cultural e inspiração e onde a voz do cordel e da xilogravura parece se adequar tão bem”, justifica Bruce.
A realização da mostra no Mercado, segundo ela, tem também como objetivo fazer uma aproximação do mestre da cultura popular com a sua comunidade e com o extenso público que circula pelo local. “Esperamos, desta forma, contribuir para a valorização dos saberes de tão expressivo espaço da cultura viva”, afirma a curadora.
A iniciativa desta exposição é parte de um projeto, realizado em parceria com o Núcleo de Empreendimentos em Ciência, Tecnologia e Artes (NECTAR), a Prefeitura do Recife e o SESC Santa Rita, e prevê, ainda para 2010, a realização de mais duas exposições. Elas terão temáticas familiares ao ambiente do Mercado de São José, tendo como elementos de ligação o homem que vê, circula, e está no mercado; o espaço da venda, de comercialização, e relações de trabalho; e, o objeto de fruição e energia cultural.
Exposição O Nosso Borges
Local: Espaço da Cultura Popular do Recife - Mercado de São José
Data: 07/maio a 10/julho de 2010
Horário de Visitação: 9h às 17h
Informações ao Público: (81) 3232-2319
Email: cultura@mercadosaojose.org.br

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Melancolias de um sertanejo longe de seu torrão


Melancolias de um sertanejo longe de seu torrão
(Manoel Messias Belizario Neto)

Sertão seco estou aqui
Nessa capital à toa.
Um dia eu te deixei
Por que faltava garoa.
Agora desprotegido,
Desempregado, sentido,
Tua falta me magoa.

Te deixei meu velho chão
Porque faltou agasalho.
Do gado todo caído,
Não mais se ouvia chocalho.
Chorava parado o vento,
O chão queimava sedento.
Despedia-se o orvalho.

Mesmo assim velho Sertão
Não posso te esquecer.
Te respirarei até
O dia que eu morrer.
Esses lugares modernos
Cheios de gente de terno
Nem chegam aos pés de você.

Tua calça sertão Velho
É um belo mandacaru;
A camisa é um juazeiro
Enfeitado de anu.
O cupim é o chapéu;
A gravata é o céu
Se derramando em azul.

Teus prédios são os serrotes
Habitadas por guará
Que guardam a tua filha.
A princesa do lugar
Do Reino da Pedra Fina
Caatinga ainda menina
Criou-se feliz por lá.

Teus mares são os açudes
Livres da poluição;
As veredas são as linhas
Dos metrôs do coração
De um sertanejo nato
Que aqui se sente ingrato
Por ter deixado teu chão.

Sertão Velho sou teu servo.
Sou teu súdito. É meu rei.
Mesmo que eu vá para a China
Inda lá te servirei.
Sem ti sou grilhão sem elo.
Guarde um canto no castelo
Que um dia eu retornarei. 
   

fonte:http://culturanordestina.blogspot.com/

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Cordel do Fogo Encantado anuncia o fim das atividades

 
O vocalista Lirinha disse que ainda participará da cena cultural pernambucana - (Paulo Cesar Cavalcanti/Arquivo PMA )
O vocalista Lirinha disse que ainda participará da cena cultural pernambucana
A banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado anunciou, em comunicado enviado à imprensa nesta quarta-feira, o fim das atividades após 11 anos de palco. De acordo com a nota, o vocalista Lirinha resolveu sair do grupo e, em conjunto, ficou acertado que os demais integrantes não continuarão com o Cordel.Ainda segundo o comunicado, os músicos "mantêm intactas as relações de profunda amizade, respeito profissional e carinho". Segunda a nota do vocalista enviada aos outros integrantes, Lirinha trilhará novos caminhos, mas não adiantou quais são esses projetos.
Em 14 de fevereiro deste ano, o Cordel gravou um show realizado na Praça do Marco Zero, em Recife. O registro será lançado em breve, com CD e DVD da apresentação. "O grupo também pretende lançar material de arquivo selecionado entre registros realizados ao longo dos seus 11 anos de existência", complementa a nota.
O Cordel do Fogo Encantando foi formado por integrantes de Arcovede, no sertão de Pernambuco, e do Morro da Conceição, no Recife, e lançou três discos: Cordel do fogo encantado, Palhaço do circo sem futuro e Transfiguração. Os shows da banda eram cercados de teatralidade e energia. Para saber as datas de lançamento dos registros do último show, acesse o site oficial da banda: www.cordeldofogoencantado.com.br

fonte:http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/02/24/diversaoearte,i=175703/CORDEL+DO+FOGO+ENCANTADO+ANUNCIA+O+FIM+DAS+ATIVIDADES.shtml
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