terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

POR QUE CREMOS NO ALÉM?


Sobrenatural, além do que é natural. Transcendental, metafísico, intangível, invisível, imaterial, etéreo.


O ser humano é o único animal que tem consciência de sua existência. Todos os outros seres vivos não sabem do ontem nem do amanhã. Somos os únicos capazes de perguntar: quem sou eu? De onde vim? Pra onde vou? Homo sapiens sapiens: homem que sabe que sabe. Temos noção da nossa presença no mundo.


Façamos agora um exercício de imaginação. Éramos um grupo longínquo no tempo. Estávamos em nossa caverna, protegidos da tempestade que castigava lá fora. Raios e trovões cortavam a imensidão do céu escuro. Repentinamente, um raio torna dia por um instante de segundo a escuridão da caverna. Logo a seguir, grande estrondo! Ouvimos o despedaçar de pedras. Com medo nos encolhemos e nos aproximamos uns dos outros, tentando nos aquecer com os corpos unidos e trêmulos.


O dia amanhece. Ao sairmos do abrigo nos deparamos com uma cena estarrecedora: a enorme pedra à frente da gruta se encontrava lascada ao meio! Certamente pela luz que caía do céu! Que força era aquela? Que poder era aquele capaz de tamanha proeza? De uma força muito superior ao nosso grupo, com certeza! Bem, trataríamos logo de tornar aquele estranho poder em algo amistoso. Mas como? Sabemos que estamos felizes quando nos alimentamos. Assim, se caçamos, parte da caça será ali depositado. Se pescamos, idem. Frutas? Também. Vamos portanto tentando felicitar aquele enorme e misterioso poder.


Não custa imaginar também que, se nosso grupo prospera na região, tornando-se tribo, aldeia, etc., aquela primitiva pedra lascada se tornará ponto sagrado de culto de uma força superior. Um altar. Com direito a oferendas, rituais, dias sagrados de culto, enfim. São inúmeras as situações, as possibilidades. Sabe-se que os deuses mais primitivos são as forças da natureza, tão misteriosas e poderosas. A primeira forma da humanidade se conformar diante do mundo foi explicar o natural a partir do sobrenatural. Daí lendas com o tempo se tornarem dogmas, ritos, cultos, templos, altares, sacerdotes, dízimos, ou seja, religião institucional e estabelecida.


E o grande mistério? Aquela pergunta profunda: De onde viemos? Bem, não faltará uma pretensão nascida da nossa capacidade única na natureza: o raciocínio, a percepção de si mesmo. Desde cedo teremos a pretensão de sermos os únicos seres vivos a não cumprir o destino biológico primário: nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer. Não. Para nós terá uma outra conclusão: morrer... e continuar existindo! Claro! Percebemo-nos no mundo, entes queridos ao nosso redor, histórias de uma vida inteira que simplesmente desaparecerão? Afinal, sou tão “gente boa”, “sou tão legal”, “sou tão especial”, não posso simplesmente aceitar a idéia de desaparecer!


Entra em cena um processo de alienação e fetiche. Criamos a idéia da eternidade no além, além mundo, além matéria, além vida! Criamos ritos funerários desde os homens das cavernas, desde quando nos percebemos seres históricos, únicos animais a produzir cultura. Talvez a maior idéia de alienação da face da Terra. Idéia irresponsável essa de se pretender eterno. Idéia infantil! Se nos aceitássemos finitos talvez não estaríamos falando em aquecimento global. Certamente não teríamos um fator desumano que causa destruição em massa de pessoas inocentes, que tem servido há milênios como fator propulsor de manipulação e guerras, tiranias e massacres, certamente não teríamos o fator deus... Mas...


“Quem tem consciência para ter coragem? / Quem tem a força de saber que existe?

E envolto em tempestade decepado / entre os dentes segura a primavera.”


Quem é forte o suficiente para encarar que a vida que se vai no segundo que passou era única, inédita e não voltará nunca mais? Portanto, quem segura a vida nos dentes sem precisar de “moletas” tão fantasiosas quanto a idéia do além?


FETICHE: processo pelo qual o ser humano se aliena de suas criações, conferindo-lhes personalidade própria, autônoma, e acaba sofrendo seus efeitos como se fora independentemente de sua vontade.


“Primavera nos Dentes” – Secos e Molhados – Álbum de estréia - 1973


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