terça-feira, 6 de julho de 2010

Elementos para uma biografia de José Pacheco e Rodolfo Coelho, por Tânia Maria de Sousa Cardoso

A figura do cangaceiro Lampião é por demais freqüente na literatura de cordel, constituindo, por essa razão, um ciclo autônomo, com características próprias dentro da literatura popular. Disso resulta que também em José Pacheco da Rocha e Rodolfo Coelho Cavalcante, considerados dois dos mais importantes cordelistas nordestinos, o tema foi bastante explorado, a julgar pelos vários títulos de cordéis dos dois autores em que o nome do “rei do cangaço” é citado.
Antes de considerarmos a obra dos dois autores, porém, torna-se oportuno conhecer alguns detalhes importantes da vida dos dois autores.
De José Pacheco da Rocha sabe-se muito pouco, havendo, inclusive, dúvidas sobre a data de nascimento do autor. Algumas informações são dadas por Gastão (2002, p. 55):

[José Pacheco da Rocha] Nasceu no município de Correntes, Pernambuco, residiu algum tempo na cidade de Caruaru, naquele Estado, como também em Maceió, Alagoas. Poeta popular dos melhores, gostava de escrever estórias de gracejos, mas explorou outros temas da literatura de cordel. Lia e cantava os seus versos. Era de um gênio moderado e possuía a técnica de atrair a matutada. Além de poeta popular bastante fecundo, caracterizado pela jocosidade e variedade de temas de suas composições, dedicou-se a várias atividades paralelas: trabalhou em feiras, ora vendendo folhetos, ora comerciando gêneros alimentícios. É autor entre outros dos seguintes folhetos: A Chegada de Lampeão no Inferno (s.d.); A Grande briga de Lampeão com a moça que virou cachorra (s.d.); O grande debate que teve Lampeão com São Pedro (s.d.); Lampeão e a velha feiticeira (s.d.), além de oito outros folhetos sobre assuntos diversos.

Na antologia de cordéis organizada por Lopes (1983, p. 417-418), outras informações sobre Pacheco são dadas:

Há controvérsia sobre o lugar de nascimento de José Pacheco. Para alguns, ele nasceu em Porto Calvo, alagoas; há quem afirme ter sido o autor de A Chegada de Lampião no Inferno pernambucano de Correntes. A verdade é que José Pacheco, que teria nascido em 1890, faleceu em Maceió na década de 50, havendo quem informe a data de 27 de abril de 1954, como a do seu falecimento. Seu gênero preferido parece ter sido o gracejo, no qual nos deu verdadeiros clássicos. Escreveu também folhetos de outros gêneros. (...)

José Pacheco foi poeta fecundo. De sua considerável obra, apresentamos apenas alguns títulos.

GRACEJO:
· A Intriga do Cachorro com o Gato
· As Palhaçadas de um Caboclo na Hora da Confissão
· A Propaganda de um Matuto com um Balaio de Maxixe
· A Chegada de Lampião no Inferno
· O Grande Debate de lampião com São Pedro
· A Festa dos Cachorros



OUTROS GÊNEROS:

· A Beata que viu Meu Padrinho Cícero Sexta-feira da Paixão
· Grinaura e Sebastião
· A Mulher no Lugar do Homem
· A Princesa Rosamunda ou a Morte do Gigante
· Os Prantos de Cacilda e a Vingança de Raul
· Peleja de um Embolador de coco com o Diabo
· Os sofrimentos de N. S. Jesus Cristo.

Ao contrário de Pacheco, a biografia de Rodolfo Coelho é bastante conhecida e relativamente bem divulgada, embora muitos dados de sua trajetória, por se confundir com peripécias dos heróis do cordel e por terem sido divulgadas pelo inventivo Rodolfo, mereçam um certo desconto.
Em obra anteriormente citada, Gastão (2002, p. 88), afirma que Rodolfo Coelho Cavalcante Nasceu em Rio Largo, Alagoas, a 12 de março de 1917. Filho de Arthur de Holanda Cavalcante e Maria Coelho Cavalcante. Aos 13 anos de idade deixou o lar paterno e percorreu todo o Norte-Nordeste como palhaço e camelô, lembrando os jograis dos séculos XI e XII. Jornalista, trovador e poeta popular. Membro de várias associações literárias, realizou na Bahia, em 1955, o primeiro congresso nacional de trovadores e violeiros e fundou alguns periódicos como “A voz do trovador”, “O trovador” e “Brasil poético”. Fixou-se em Salvador, Bahia, onde publicou e vendeu os seus folhetos. Autor, entre outros, dos seguintes: “O barulho de Lampião no inferno”; “A chegada de Lampião no céu”; “A chegada de Lucas da Feira no inferno”; “O encontro de Guabiraba com Lampião”; “O encontro de Rodolfo Cavalcante com Lampião Virgulino”; “Lampião e seus cangaceiros”. Sua produção literária alcança número superior a 270 folhetos.

Os fatos descritos de forma sintética por Gastão são minuciosamente descritos por Eno Wanke em uma obra inteiramente consagrada ao registro dos fatos pitorescos do cordelista. É nessa obra, denominada de Vida e luta do trovador Rodolfo Coelho Cavalcante (1983.), que, entre várias proezas inacreditáveis, Rodolfo Coelho, cuja máxima escolaridade foi o terceiro ano primário, com medo do castigo por ter perdido o emprego em uma companhia de telégrafos, fugiu de casa em 1932, chegando a Recife, onde trabalhou fazendo propagandas nas portas das lojas. Só retornaria para casa três meses depois, logo que conseguiu guardar algum dinheiro.
Em 1934, foge novamente de casa, dessa vez com o irmão. Passam a viver de biscates e até mesmo de pequenos trambiques, entre os quais o de vender pedras retiradas do rio como se fossem talismãs com poderes mágicos de cura. Nessa viagem, chegaram a cruzar com Lampião e seu bando, que os capturou, mas, ao verificar a sua insignificância, deixou-os ir, displicente.
Em Conceição do Canindé, no Piauí, onde chega com o irmão em 23 de dezembro, Rodolfo apaixonou-se perdidamente por uma garota chamada Hilda e casou-se com ela apenas 8 dias depois.
Com a mulher, viaja para Salvador, onde nasceu seu filho primogênito, que falece pouco tempo depois. Quando sua mulher engravidou novamente, regressa para Conceição do Canindé, onde nasceu sua filha Israelita.
Em 1942, estabelece-se com a família em Teresina, capital do Piauí, onde tem início, de fato, sua prolífica vida de cordelista, que tem início com Os Clamores dos incêndios em Teresina. O folheto tratava de fato verídico, sobre uma série de incêndios em barracos nos da cidade. Para a população, teria sido o próprio governo o causador dos incêndios, cujo propósito seria o de pôr fim às favelas.
Em agosto de 1945, muda-se mais uma vez para Salvador, onde põe fim definitivo à sua peregrinação. Rodolfo escreveu quase dois mil cordéis. Entre esses, o mais famoso, segundo o próprio Rodolfo, foi A Moça que bateu na mãe e virou cachorra. Escrito no fim da década de 40, o folheto já vendeu centenas de milhares de exemplares, alcançando, até o momento, cerca de quarenta edições.
Além de cordelista, Rodolfo teve destacada atuação como defensor de sua classe, seja solicitando diretamente às autoridades o fim da violência policial para com os folheteiros que mercavam suas obras, seja criando associações representativas dos poetas populares. Ente essas agremiações, contam-se a Associação Nacional de Trovadores e Violeiros (ANTV) e o Grêmio Brasileiro de Trovadores (GBT). Também participou e organizou congressos de poetas populares.
Essa intensa atuação política, somada ao seu talento inquestionável, rendeu-lhe várias honrarias, como a que foi realizada pela Academia Brasileira de Letras, que em uma sessão dedicada a Rodolfo, outorgou ao poeta a Medalha Machado de Assis. Também foi objeto de tese universitária na Universidade de Sorbonne, escrita por Martine Kunz, denominada Rodolfo Cavalcante poète populaire du Nord-Est Brésilien.
O papel de liderança e amor pela classe é destacado por Eno Wanke ao prefaciar a coletânea de poesias de Rodolfo Coelho Cavalcante organizado pela editora Hedra (2000:9): “Rodolfo Coelho Cavalcante (1919-1986) não foi apenas mais um cordelista nordestino. Era também, um líder, um benemérito da classe sofrida e às vezes perseguida, devido à confusão que as autoridades faziam, no início de sua carreira, entre os poetas populares e os camelôs”.
Todo o reconhecido, entretanto, não resulta em uma vida de grandes confortos. E assim falece, nas primeiras horas do dia 8 de outubro de 1986, em virtude dos ferimentos causados por um atropelamento automobilístico sofrido no dia anterior.
Dentre os quase dois mil folhetos escritos por Rodolfo, citam-se:

· A Devassidão de hoje em dia
· A Língua da mulher faladeira
· A Maneira da mulher não ter filhos
· A Morte de Getúlio
· A Mulher que foi surrada pelo diabo
· A Volta de Getúlio
· ABC da Carestia
· ABC de Maria Bonita
· ABC do Amor
· Antônio Conselheiro
· Cuíca de Santo amaro: o poeta popular que conheci
· Este mundo está perdido
· Gregório de Matos Guerra: o pai dos poetas brasileiros
· O Boi que falou no Piauí
· O Desencanto da moça que bateu na mãe e virou cachorra
· O Encontro de Rodolfo Cavalcante com Lampião Virgulino
· Paulista virou tatu viajando pelo metrô
· Tudo na Terra tem seu fim

(*) Tânia Maria de Sousa Cardoso, Pedagoga/Supervisão Escolar, formada pela atual Universidade Federal de Campina Grande/UFCG, Centro de Formação de Professores/CFP, Campus de Cajazeiras – PB. Especialista em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN. Professora da Rede Municipal de Ensino de Mossoró/RN.


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