quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O Cariri Cangaço vem se firmando como o maior evento histórico-cultural sobre o cangaço e agora também beatos e coronéis, cujas histórias se entrelaçam, já realizado no Brasil.

Deu na Folha Sertaneja!

A extensa programação do II Cariri Cangaço em 2010, reuniu quase uma centena de pesquisadores, escritores, poetas, compositores, jornalistas, cineastas que se embrenharam, incansavelmente em longas incursões pela caatinga seca e sem água para ver lugares, casarões centenários, cemitérios, mobiliário da época e pessoas que não se cansavam de repetir histórias que marcaram aquele lugar, seja pela passagem belicosa ou amiga dos cangaceiros, pela firme presença dos coronéis, donos da vida e da morte ou de beatos que apaziguavam os espíritos dos sertanejos daquelas terras cearenses.

Seguindo esses rastros de homens e mulheres que fizeram a história desse pedaço do Ceará, os pauloafonsinos Antônio Galdino, João de Sousa Lima, Rubinho Lima, Luiz Ruben, Gilmar Teixeira e a filha Eloíse, se juntaram a tantos outros estudiosos, para aprender mais um pouco sobre o que aconteceu por ali. Em cada lugar, uma descoberta, um apanhado de informações, que resultarão em estudos mais aprofundados, depois compilados em revistas, jornais, livros, vídeos e imortalizados também em milhares de fotografias, provas indeléveis de que ali, na simplicidade daquela região árida, quase improdutiva, a vida e a morte marcaram forte presença.

Não se promove um evento desse porte sem grandes apoios, do poder público, de instituições acadêmicas, de empresários que possuem uma visão do futuro a partir de um olhar no passado. Foi assim com o projeto vitorioso chamado Cariri Cangaço, que está apenas no seu segundo ano e já provocou um saudável agito nos municípios de Crato, Juazeiro, Missão Velha, Barbalha e Aurora, fincados todos no sul do Ceará.

Foi o que se viu em cada momento deste evento. Depois de um dia intenso de viagens por caminhos estreitos no meio da caatinga, de bons pedaços de chão percorridos a pé, visitas a cemitérios, fazendas, igrejas, engenhos, fontes de águas cristalinas que o Nordeste também possui para se descobrir que a história parece brotar da terra em cada árvore, em cada riacho seco, em cada caldeirão.

Ali, nesses lugares ermos e no agito das cidades, os pesquisadores eram recebidos com honrarias, com aplausos, com a melhor comida e o melhor sorriso onde chegavam. E todos, mesmo cansados se acomodavam para ouvir, pacientemente, cada orador discorrer fluentemente sobre personagens e lugares trazendo à tona detalhes que transformavam um relato, aparentemente simples, numa grande história, orgulho de várias gerações.

 Napoleão Tavares Neves, dando entrevista durante Cariri Cangaço 2010

De volta ao hotel, depois de percorrer até centenas de quilômetros, era apenas o tempo para um banho que deixava todo mundo novo e pronto para as conferências da noite e os aplausos da população de cada um dos lugares. O humor de kydelmir, Ivanildo, de "Bin Laden", que compôs a bela música tema do I Cariri Cangaço, dentre outros exímios contadores de piadas e de causos, contribuiu para deixar todo mundo animado.

Foi assim em Aurora, onde o Prefeito, o vice-prefeito e todo o staff da sua gestão não mediram esforços para receber os pesquisadores e aplaudi-los na sua visita ao município. Foi assim também em Juazeiro, em Crato, em Missão Velha, em Barbalha onde sempre havia autoridades e muita gente, famílias tradicionais da cidade, descendentes de quem estava ali sendo homenageado, como pioneiro construtor dessas histórias. Universidades, teatros, auditórios acolhiam a todos.
  
Imagens da Solenidade na Câmara Municipal de Missão Velha

Em Missão Velha, de tantas histórias, a Câmara de Vereadores abriu suas portas para receber os estudiosos do assunto. Ali, como em cada uma das cidades, grupos folclóricos, cantavam, dançavam, encenavam passagens sobre a vida e a morte que nesse contexto parecem ter o mesmo peso dos personagens que fizeram com que tantos pesquisadores, gente do quilate de Antônio Amaury, que se deslocou de São Paulo, de Lemuel Rodrigues, Múcio Procópio, Antonio Vilela, João de Sousa Lima, Honório Medeiros, Geraldo Ferraz, Renato Dantas, Alcino Alves Costa, Napoleão Tavares, Juliana Ischiara, Eloísa Farias, de Brasília, Bosco André, Gilmar Teixeira, Paulo Gastão, Kydelmir Dantas, Magérbio de Lucena, Wilson Seraine, Alfredo Bonessi, para citar apenas alguns dos quase cem estudiosos que ali estiveram entre os dias 17 e 22 de agosto, sempre recepcionados pelo anfitrião, o curador do evento, o incansável Manoel Severo.

O mestre Antônio Amaury Correia de Araújo, autor de vasta bibliografia sobre o cangaço, como Assim Morreu Lampião; Gente de Lampião: Dadá e Corisco; Lampião: As Mulheres e o Cangaço dentre vários outros, fez a conferência de abertura do II Cariri Cangaço, no Salão de Atos da Universidade Regional do Cariri (URCA), em Crato, falando de Zé Rufino, considerado o maior matador de cangaceiros de todos os comandantes de volantes. Antes, Amaury foi homenageado com um vídeo mostrando várias imagens da vida do escritor paulista em seus mais de 50 anos dedicados ao estudo e pesquisa da temática cangaço e uma placa que lhe foi entregue pelo escritor João de Souza Lima, de Paulo Afonso-BA.

 Rubinho Lima e Manoel Severo

O curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, fez a abertura oficial destacando e ao mesmo tempo agradecendo os apoios das administrações municipais que estão sendo partícipes desse trabalho. São cerca de 90 pessoas envolvidas no processo de organização, enfatizou Severo. O tema, segundo ele, é palpitante e polêmico, e o Cariri Cangaço, conforme o curador, ?dá oportunidade de se debater as nuances do processo histórico.

O Reitor da URCA (Universidade Regional do Cariri), Plácido Cidade Nuvens, na abertura, afirmou que a universidade regional não poderia desconhecer o fenômeno do cangaceirismo, porque foi uma marca dos dias da nossa história. A URCA deve debruçar-se para ver as suas causas e o reflexo para o desenvolvimento regional, com a responsabilidade acadêmica, disse.

A secretária de Cultura, Danielle Esmeraldo, ressaltou que os participantes se encontram não para estudar a história de Lampião, mas do Cariri e do mundo. Tem muita coisa que a gente precisa se indagar. Esse evento é rico e tem assunto, por ter história. Tem tudo a ver com a nossa região, frisou.

O que de viu nos dias seguintes, até a manhã do domingo, 22, foi uma seqüência de visitas técnicas e de palestras, seguidas de acalorados debates e questionamentos, sobre a temática proposta. Afinal, quem foi mesmo Lampião?, Herói ou bandido?, E quem matou Delmiro Gouveia?, Qual a influência e a relação de Padre Cícero com coronéis, beatos e cangaceiros? Certamente, na avaliação que se fizer sobre este evento edição de 2010, os pequenos senões que forem encontrados serão amplamente superados pela grande quantidade de acertos. E os questionamentos voltarão a inquietar a muitos.

Isso, associado aos belos espetáculos e demonstrações da cultura sertaneja, será munição suficiente para que os organizadores do evento já comecem os preparativos para mais um grande encontro de escritores, interessados na história, na cultura, nos ensinamentos que o 3º, o 4º... o 10º e um sem número de outros Cariris Cangaço irão proporcionar, como um resgate da história e da memória desse valoroso povo nordestino, ainda tão discriminado internamente, no próprio Nordeste e além fronteiras, especialmente pelo olhar pouco reconhecido dos estados do sudeste cuja riqueza e projeção que hoje possuem foram forjados pelos braços e pela inteligência dos trabalhadores sertanejos.

Antonio Galdino - Folha Sertaneja / Paulo Afonso BA
folhasertaneja.online

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