terça-feira, 30 de agosto de 2011

POR DENTRO DA OPUS DEI

OPUS DEI: O EXERCITO DO PAPA
TEXTO DE: Mariana Sgarioni e Mauricio Manuel

MORTIFICAÇÃO CORPORAL
Imagine sua mente sendo monitorada 24 horas por dia. Você está num lugar onde não é permitido ver televisão ou ir ao cinema. Até o jornal chega editado às suas mãos. Ninguém pode ter amigos do lado de fora e o contato com a família é restrito.
Pelo menos duas horas por dia, você tem de amarrar um cilício na coxa – espécie de instrumento de tortura com pontas metálicas que machucam a pele. Quanto maior for o seu desconforto, melhor: isso significa que a instituição está exercendo mais controle sobre você. Se doer demais, tudo bem, você poderá trocar de coxa na próxima vez. O importante é que a experiência não passe em branco. Tem de machucar, deixar marcas. Caso contrário, não “faz efeito”.
Castidade
Se tudo isso já parece um pesadelo, saiba que ainda não acabou. Uma vez por semana, você terá também de golpear suas nádegas ou suas costas com um chicote. E ainda passará pelo que é chamado de “sinceridade selvagem”: contar aos seus superiores cada pensamento que passa pela sua cabeça, principalmente aqueles segredos mais íntimos, sobre os quais não se comenta nem no banheiro, de porta fechada e luz apagada. Se você não revelar tudo, mas tudinho mesmo, estará mantendo um “segredo com Satanás”.
As situações descritas acima não ocorrem nos porões de uma ditadura ou no ritual de alguma seita satânica, muito pelo contrário. Elas são rotina nas residências do “OPUS DEI”, onde vivem os chamados numerários – membros da organização religiosa que fazem voto de castidade e estão ali por opção, para “santificar” o mundo
Como dizia Josemaría Escrivá, fundador do grupo: “Seja santo. Santifique-se em seu trabalho. E santifique os outros com seu trabalho”.
Quem defende a instituição religiosa das acusações de ultraconservadora, totalitária e conspiradora garante que não há nada de errado com suas tradições, muito menos de secreto ou misterioso nas ações de seus integrantes. “Para quem conhece e vivencia o OPUS DEI, acima da pirotecnia fica a verdade: ele é uma entidade da IGREJA CATÓLICA (...) cuja única finalidade é procurar o ideal da vida e de serviço cristão no meio do mundo, mediante a santificação do trabalho profissional, da família e dos deveres cotidianos”, afirma o jurista Ives Gandra Martins, num artigo publicado pelo jornal Folha de S.Paulo em 2005

JOSEMARÍA ESCRIVÁ
O fundador que virou santo.
Fundador do OPUS DEI, o sacerdote espanhol – falecido em 1975 – hoje é santo. Nascido no ano de 1902, Escrivá teria resolvido dedicar sua vida ao sacerdócio quando, no rigor do inverno europeu, viu um padre caminhando descalço sobre a neve. Segundo a história oficial, o jovem sentiu-se compelido a seguir o exemplo e também oferecer-se a Deus.
Escrivá afirmava ter tido uma visão depois de ordenado, aos 26 anos: homens e mulheres realizando a “Obra de Deus” e mudando os rumos da história. Assim ele teria tido a idéia de criar o OPUS DEI. Depois de fundar a ordem em Madri, no ano de 1928, saiu arrebanhando seguidores. Mas logo esbarraria na Guerra Civil Espanhola, em 1936. Escrivá abandonou a cidade e interrompeu a expansão do Opus, retomando-a só em 1939, com o fim da guerra e a manutenção do ditador Francisco Franco no poder.
POLÊMICO
• Virou santo em tempo recorde, em 2002 (só 27 anos depois de sua morte). Segundo seus críticos, era simpático ao regime totalitário de Franco.
• Foi confessor de Franco e de vários ministros durante a ditadura espanhola.
DISCIPLINA
Chicotadas nas próprias costas é uma das modalidades de autoflagelo à qual os seguidores do Opus Dei recorrem pelo menos uma vez por semana. A pequena corda com nós usada para isso, conhecida como “disciplina”, geralmente não deixa marcas.
NA CARNE
O cilício tem pontas de ferro que penetram na carne. Para a maioria dos numerários, esse tipo de penitência física é uma prática corriqueira: eles passam pelo menos duas horas por dia com esse instrumento de tortura amarrado perto da virilha.
LIVROS PROIBIDOS
O Opus Dei tenta controlar o que seus seguidores lêem. A ordem classifica obras literárias numa escala que vai de 1 a 6: no primeiro nível estão os livros permitidos a todos e no último, os totalmente proibidos. Conheça alguns deles:
• O Capital, Karl Marx
• Além do Bem e do Mal, Nietzsche
• Cândido, Voltaire
• O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago
• O Diário de um Mago, Paulo Coelho
• Presente de um Poeta, Pablo Neruda
• Ulisses, James Joyce
• Madame Bovary, Gustav Flaubert
• Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust
A CRUZ E O MUNDO
No símbolo oficial do OPUS DEI, o círculo representa o mundo e a cruz é a marca do cristianismo inserida nele. Trata-se de uma representação do sonho que Escrivá teria tido aos 26 anos de idade: a “Obra de Deus” alcançando cada canto do planeta, pelas mãos de seus seguidores.
JAVIER ECHEVARRÍA
O atual mandachuva.
Este homem é o atual prelado do OPUS DEI – cargo máximo do grupo, vitalício – e não responde a mais ninguém além do papa. Espanhol, nascido em 1932, formou-se advogado, especializando-se em direito civil e direito canônico. Entrou para a organização em 1948, com apenas 16 anos, mas só foi ordenado sacerdote em 1955. Dom Javier, como é chamado, foi secretário de Josemaría Escrivá durante 22 anos. É uma das pessoas que mais conheceu o fundador da organização religiosa na intimidade.
Ao assumir o comando em 1994, nomeado prelado pelo papa João Paulo 2º, Echevarría tornou-se o 3º prelado da ordem desde a sua fundação, em 1928. Ele substituiu Alvaro del Portillo, sucessor direto de Escrivá. Dom Javier é conhecido por viajar o mundo inteiro para divulgar a “Obra” e abrir portas para o diálogo entre crenças e culturas distintas.
MISTERIOSO
• Integra a congregação que controla processos de canonização desde 1981.
• É chanceler da Universidade de Navarra e de outras instituições de ensino.
• Ao contrário de Escrivá, prefere manter sua biografia cercada de mistério.
FONTE: REVISTA SUPER INTERESSANTE
NOVEBRO DE 2008
EDITORA ABRIL

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