quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Caldeirão dos Mitos

Caldeirao Dos Mitos Elba Ramalho
Eu vi o céu à meia-noite
 Se avermelhando num clarão
 Como incêndio anunciado
 No apocalipse de São João
Porém não era nada disso
 Era um Curisco, era um Lampião
Eu vi um risco nos espaços
 Era o revôo do sanhaçu
 Eu vi o dia amanhecendo
 No ronco do maracatu
 Não era lança de São Jorge
 Era o espinho do mandacaru
Ví um profeta conduzindo
Pros arraiais as multidões
 Pra construir um chão sagrado
 Com espingardas e facões
Não foi Moisés na Palestina
Foi Conselheiro andando nos sertões
Eu vi um som na escadaria
 Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó
 Não era o eco das trombetas
 De Josué em Jericó
Era um fole de oito baixos
 A tocar numa noite de forró
Vi um magrelo amarelado
 Passando a perna no patrão
 Não foi ninguém da Inglaterra
Nem de Paris, nem do Japão
 Era o Pedro Malazarte
 Era João Grilo e era Cancão
Eu vi um som ao meio-dia
 No meio do chão do Ceará
Não era o coro dos Arcanjos
 Nem era a voz de Jeová
Era uma cascavel armando o bote
Balançando o maracá
Vi uma mão fazer do barro
Um homem forte
 Um homem nu
 Um homem branco como eu
Um homem preto como tu
 Porém não foi a mão de Deus
Foi Vitalino de Caruaru


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