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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Programaçã​o Cariri Cangaço Parahyba

Programaçã​o Cariri Cangaço Parahyba
Caros(as) amigos(as),
Saudações cangaceiras!
É com enorme alegria que, através do presente email, divulgamos a programação do Cariri Cangaço Parahyba, que se realizará nas cidades de Sousa/PB e Nazarezinho/PB, entre os dias 15 e 16 de junho de 2013.
Desde já reiteramos o nosso convite.
PROGRAMAÇÃO CARIRI CANGAÇO PARAHYBA
SOUSA E NAZAREZINHO
Sousa – PB,15 de junho de 2013/Sábado (Local: Centro Cultural Banco do Nordeste)
14:00h – Cerimônia de Abertura
14:20h - Mesa Redonda
Tema: Homem, terra, religiosidade, sertão e cangaço: a construção histórica da figura do cangaceiro.
Coordenador da Mesa: César Nóbrega – Sousa/PB
Debatedores: Lemuel Rodrigues – Mossoró/RN
Múcio Procópio – Natal/RN
Honório de Medeiros – Natal/RN
16:00h -Exibição do documentário: “A violência oficializada no tempo do cangaço” (Produção da Laser Filmes)
Debatedores: Aderbal Nogueira – Fortaleza/CE
Juliana Ischiara – Quixadá/CE
19:00h – Mesa Redonda
Tema: O cangaço na Parahyba
Coordenador da Mesa: Manoel Severo – Fortaleza/CE
Debatedores: Ângelo Osmiro – Fortaleza/CE
Bismark Martins – Campina Grande/PB
Wescley Rodrigues – Cajazeiras/PB
Nazarezinho - PB, 16 de junho de 2013/Domingo.
07:30h – Visita Técnica (A casa do Jacu e a casa de seu Abdias Pereira)
08:30h – Cerimônia de Abertura (Local: Centro Social)
09:00h – Exibição do documentário: “Na cabeça do povo” (Produção: Helena Maria Pereira)
09:30h – Mesa de Debate
Tema: O cangaço como caracterizador da cultura sertaneja e a importância da cultura material como elemento formador da identidade de um povo (A memória do cangaceiro Chico Pereira)
Debatedores: João de Sousa Lima – Paulo Afonso/BA
Paulo Gastão – Mossoró/RN
Exposição do Cangaço
Abraço fraterno!
Prof. Wescley Rodrigues

Postado por José Romero Araújo Cardoso

terça-feira, 23 de abril de 2013

Feira da Música 2013 abre inscrições para idéias, artistas e bandas

A Feira da Música 2013 abre a partir do dia 02 de abril, inscrições para Ideias e Realizações em formatos livres, podendo contemplar outras linguagens artísticas além da música, e ser realizado em diferentes espaços no evento. A participação é aberta para grupos, artistas, produtores e instituições do Ceará, demais estados do Brasil e de outros países. Com isto, a Feira 2013 amplia as oportunidades para além das apresentações de músicos/bandas dentro da Mostra de Música Independente e abre a programação para propostas inovadoras que utilizem a plataforma para instalar de maneira eficaz novos aplicativos para o fortalecimento da Música Plural Brasileira.
Ao longo de mais de uma década de atuação, o evento já envolveu cerca de 4790 músicos em 765 shows, recebeu 264 painéis/oficinas e reuniu 726 expositores. Chegando à décima segunda edição, a Feira da Música se apresenta como um Programa continuado de ações que acontece por todo o ano, se configurando como uma plataforma colaborativa de música, negócios e formação, que envolve os diversos elos e indivíduos ligados à cadeia produtiva da cultura. A programação se estende de maio a novembro de 2013 com atividades de formação, circulação, difusão e integração dos agentes dessa cadeia.
Consolidada no cenário da música independente brasileira, em 2013 um dos objetivos da Feira é romper barreiras, utilizando-se cada vez mais da aplicação de tecnologias livres em sua composição. Aberta para uma construção colaborativa entre agentes de todo o Brasil, a programação será composta de forma mais ampla, alinhando as potencialidades dos agentes culturais e bandas aos múltiplos ambientes criativos que a Feira proporciona. A idéia é que os selecionados façam parte da construção do evento diretamente, apresentando propostas que influenciem de forma macro o festival.
Além dos projetos selecionados via inscrição, a Feira foca nos artistas locais e potencializa 6 grupos selecionados pelo comitê gestor do evento. Estes serão apresentados na data de lançamento da Feira da Música 2013 – dias 03 e 04 de maio – e seguirão durante todo o ano integrados através da plataforma de difusão e circulação proposta pelo Festival.
A grande mostra acontece em agosto, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, entre os dias 21 e 24, realizada pela Associação dos Produtores de Cultura do Ceará – PRODISC e Casa Fora do Eixo Nordeste, apoio do TNB – Toque no Brasil, filiada à Rede Brasil de Festivais através do Circuito Nordeste de Festivais Independentes.
Para se inscrever, os proponentes devem preencher o formulário neste link com todas as informações solicitadas. Para a categoria Mostra de Música Independente, o processo é composto por duas etapas, além do envio do formulário responsável deverá abrir perfil no site Toque no Brasil- TNB e cadastrar-se na oportunidade Feira da Musica 2013, só assim a inscrição será validada.
E você, já pensou na sua proposta? A partir de agora a construção está valendo. Traga a sua ideia, estamos abertos para o novo mundo!
Preencha o formulário de inscrição aqui
Visite nossa oportunidade no Toque no Brasil e cadastre sua banda.
Mais informações: inscricoes@feiradamusica.com.br
85. 32625011/99982038

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10 TÉCNICAS INFALÍVEIS PARA MANIPULAR A POPULAÇÃO


O filósofo, linguista e ativista político norte-americano Avram Noam Chomsky desenvolveu uma lista de 10 estratégias utilizadas pela mídia como um todo para manipular a população em geral.
Manipulação da mídia

Distração

Uma das principais técnicas de controle social é a denominada estratégia da distração. Basicamente, esse método consiste em desviar o público de problemas sociais, políticos e econômicos. Somos bombardeados pela TV com informações insignificantes, tornando mais difícil o público ganhar interesse em assuntos essenciais, como científicos, sociais,  econômicos, psicológicos, e por aí vai. Manter as pessoas ocupadas com questões sem importância é uma  boa técnica de manipulação.

Problema-reação-solução

Outra técnica muito conhecida e discutida consiste em criar um problema de impacto emocionalmente forte sobre a população, esperar a reação das pessoas e por fim colocar em prática um plano que beneficie o sistema. Um exemplo disso é um ataque terrorista. Dependendo de sua intensidade, o povo abriria mão de muitas coisas em troca de segurança. Após o atentato de 11 de Setembro de 2001, por exemplo, o governo dos EUA aprovou uma lei denominada Ato Patriótico , no qual agências públicas ganharam o poder de invadir legalmente a privacidade dos cidadãos.

Gradação

É simples fazer a população aceitar uma medida inaceitável, basta ter tempo. Aplicar um plano gradativamente é uma excelente alternativa de controle. Assim que condições socioeconômicas radicais (neoliberalismo) foram implantadas durante os anos 80 e 90. Privatizações, precariedade, desemprego, baixos salários… Tantas mudanças que causariam uma revolução caso tivesse sido aplicadas de uma só vez.

A técnica do “deferido”

Outro método para fazer a população aceitar uma medida que não convém muito a ela é apresentá-la como sendo necessária e dolorosa, no qual será aplicada no futuro. É mais simples se aceitar um sacrifício futuro que um imediato, até porque as pessoas normalmente tendem a acreditar que amanhã tudo estará melhor, e que talvez o sacrifício já seja desnecessário.

Infantilidade

Grande parte das publicidades utilizam argumentos, personagens, entonação e até mesmo personagens infantis, como se fossemos todos pequenas crianças ou deficientes mentais. O tom de infantilidade aumenta proporcionalmente à intenção de se enganar o telespectador. A resposta ou reação dele tende a ter também um senso crítico equivalente ao de uma criança.

Mensagens subliminares

Se aproveitar da fragilidade emocional de grande parte da população é outra técnica bastante utilizada para manipular as pessoas, a fim de causar um curto-circuito no senso crítico de cada um. Para isso, a mídia constantemente se utiliza da técnica das mensagens subliminares, sobretudo na televisão.

Mantendo o público na ignorância

Essa obviamente é a técnica mais utilizada como forma de manipulação e a mais eficiente, sobretudo em países com baixo nível de educação, como o Brasil. Não querem que saibamos os métodos que utilizam para nos manter na escravidão.
Essa técnica é utilizada em conjunto com a técnica da distração. Não é a toa que se investe tão pouco em educação para as classes baixas, afinal de contas, um povo ignorante é mais fácil de controlar. Na televisão, poucos são os conteúdos de qualidade apresentados e a situação está cada vez pior. Outro exemplo é a música, que teve uma decadência assustadora em termos de qualidade (conteúdo) desde o início do século XXI, principalmente aqui no Brasil. Isso sem mencionar alguns sistemas religiosos que são uma forma descarada de alienação.

Estimular o público a permanecer na ignorância

Fazer com que as pessoas acreditam que ser estúpido, vulgar e inculto é moda. Exemplo disso é a música e estilo divulgados pela televisão.

Fazer com que as pessoas sintam-se culpadas

Essa técnica de manipulação consiste em fazer com que a pessoa acredite que somente ela é culpada pela sua própria infelicidade (falta de inteligência, pobreza, incapacidade…). Assim o indivíduo não irá se revoltar contra o sistema político-econômico, e irá se culpar por tudo, gerando um estado depressivo no qual o ser se sente inibido a agir. Sem ação não há revolução!

Eles sabem mais sobre nós do que nós mesmos

Com o constante avanço da tecnologia, ciência, biologia e psicologia, criou-se uma grande distância entre os conhecimentos do grande público e daquilo que realmente existe e eles sabem. E o sistema tem se aproveitado muito bem disso, e possui o poder de conhecer melhor cada pessoa que elas mesmo, ou seja, o sistema exerce um controle e poder maior sobre as pessoas do que as pessoas em si.
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“E meus amigos parecem ter medo
De quem fala o que sentiu
De quem pensa diferente
Nos querem todos iguais
Assim é bem mais fácil nos controlar
E mentir, mentir, mentir
E matar, matar, matar”
Trecho de Aloha, Legião Urbana
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Até quando iremos aceitar essa manipulação? Até quando o povo continuará alienado? Onde iremos parar desse jeito? Hoje em dia a sociedade está da forma que o governo quer, sem o poder de pensar. Grandes veículos de informação e formadores de opinião são a cultura, sobretudo a música, e infelizmente isso parece que acabou também. As pessoas se importam mais com novela e futebol do que com a situação do nosso país. É a triste realidade em que vivemos, e escapar dela hoje é muito difícil dada as coisas como estão.


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domingo, 21 de abril de 2013

Ulisses Liberato de Alencar: Ovelha desgarrada da “elite branca” do algodão. Por: José Romero Araújo Cardoso



Apesar de ter se destacado entre os mais cultivados e astutos chefes de cangaço do início da segunda década do século XX, Ulisses Liberato de Alencar foi um proeminente membro da orgulhosa aristocracia rural que se formou no sertão nordestino com o apogeu da cotonicultura no século XIX e parte do século passado.
Ulisses nasceu em “berço de algodão” na fazenda “Estrelo” no ano de 1894, natural do município de Pombal, cuja localização geográfica está no alto sertão da Paraíba, situado a quase quatrocentos quilômetros da capital, na confluência dos rios Piranhas e Piancó.
Seu pai era o fazendeiro e almocreve Francisco Liberato de Alencar, descendente do mesmo ramo familiar do qual fazia parte o romancista cearense José de Alencar. Do lado materno descendiam de judeus. A mãe de Francisco Liberato de Alencar, de nome Ana Maria da Conceição, dos Cardoso D’Arão, era filha de um descendente de criptojudeu de nome João Ignácio Cardoso D’Arão, cujo pai fugiu do litoral paraibano para escapar das perseguições da inquisição que acusava a comunidade de prática judaizante, estando a mesma localizada, mais precisamente, na área adjacente a Gramame, em uma localidade conhecida por Engenho Velho.

Após a fuga se homiziaram no cariri cearense e depois em uma comunidade conhecida por Mari dos Seixas, localizada em São João do Rio do Peixe, pertencente na época à localidade de Sousa, Estado da Paraíba, rumando depois para Pombal, onde se instalaram definitivamente.
Até 1914 o futuro líder bandoleiro era apenas mais um entre tantos sertanejos que labutavam nas adustas plagas tórridas da região do Piranhas-Piancó. O seu espírito belicoso e aguerrido só despontou com ênfase quando da seca de 15. Esta estiagem destruiu as economias amealhadas a custo pela outrora imponente família Liberato de Alencar, embora passado o rigor climático tenha havido o equilíbrio das finanças dos alencares.
Associado a essa desgraça cíclica veio a morte de Francisco Liberato de Alencar, fazendo com que Ulisses se aproximasse de famílias abastadas que personificavam a classe dominante da hinterlândia paraibana. Situavam-se degraus acima dos alencares na estamentação da sociedade sertaneja agro-pastoril.
No complexo inter-relacionamento entre oligarquias havia laços de suserania e vassalagem conforme os favores e benesses concedidos. Os alencares já não dispunham de posses que rivalizassem com famílias historicamente detentoras do mandonismo local, como Queiroga e Fernandes. A submissão de Ulisses o levou aos caminhos da vida marginal.
Favores “exigidos” por “protetores” dos momentos de infortúnios comprometeram a família e o próprio Ulisses. Já não era o considerado filho do respeitado e rico fazendeiro do “Estrelo”. Transformou-se rapidamente em um bandido que roubava e matava a serviço da falta de escrúpulos e da ausência de valores. Selava assim o seu destino às leis do bacamarte e da lazarina.
O prestígio dos alencares, decaído em razão da inserção de um membro da orgulhosa aristocracia do algodão nas hostes do cangaço, amalgamado com os efeitos da seca inclemente, precisava ser reerguido.
Ulisses foi enviado pela família a São Paulo a fim de se regenerar. Logo a solução se mostrou inviável, pois o bandido não demorou o bastante na região Sudeste. Retornou ao sertão e recomeçou toda uma série de estrepolias e escaramuças.
Antigos “protetores” começaram a se mostrar preocupados com aquele “arquivo vivo” solto na caatinga. Não era em vão o temor que os caudilhos sertanejos demonstravam.

Dotado de um temperamento violento e impulsivo, Ulisses invadiu a fazenda “Bom Jesus”, em Pombal, surrando impiedosamente a sua proprietária de nome Antônia Maria da Conceição em razão que esta o estaria difamando, comentando seus crimes nas redondezas. Contemporâneos do bandido, no entanto, afirmavam que o mandante de tal atrocidade tinha sido famoso “Coronel” que marcou época no sertão, implicado diretamente nas desditas da ovelha desgarrada da “elite branca” do algodão.

As conseqüências desse ato se revelaram negativas a Ulisses e aos mandatários de baraço e cutelo, vindo à tona diversos crimes praticados pelo futuro cangaceiro. A partir disso ele se tornou mais perigoso, representando uma ameaça mais latente aos seus antigos “protetores”. O caminho a seguir era o cangaço, ombreando com salteadores famosos do nordeste semi-árido a sua triste sina.
Ulisses se tornou mais um cavaleiro nômade vestindo a couraça dos guerreiros sertanejos. Empunhou o rifle, amolou a faca que um dia seu pai abriu caminho na caatinga conduzindo tropas de burros, e formou seu bando com a matéria-prima inesgotável na região. Onde há miséria e perseguição não faltará quem viva à margem da sociedade alardeando a revolta aos quatro cantos.
Suas ações, rápidas e precisas, valeram-lhe fama e respeito de outros grupos bandoleiros. Em considerável parcela da região semi-árida de quatro Estados nordestinos seu nome granjeou notoriedade fabulosa. Boa parte da Paraíba, do Rio Grande do Norte, do Ceará e de Pernambuco registrou as ações espetaculares de Ulisses Liberato de Alencar.

A definição de um dos valhacoutos da fera sertaneja na localidade do Barro, Estado do Ceará, feudo inconteste do todo poderoso “Major” José Ignácio de Sousa, determinou a aproximação do cangaceiro com outro proeminente membro da oligarquia sertanejo, não menos afortunado que Ulisses. Atendia pelo nome de Sebastião Pereira e Silva, o célebre “Sinhô Pereira”. Junto com o primo Luiz Padre moviam luta sem quartel na secular guerra interfamiliar envolvendo sua família e a dos Carvalhos.

O “Major” José Ignácio era um dedicado coiteiro, considerado o maior de todos. Amigo dos alencares, principalmente de Argemiro, agente econômico na comercialização das famosas rapaduras dos engenhos do velho caudilho cearense no sertão da Paraíba.

Já cangaceiro profissional, Ulisses resolveu se casar com uma sertaneja de nome Santina. Corria o ano de 1918. As perseguições ininterruptas passaram a atingir além do “Estrelo”, nas localidades onde residam os parentes de sua esposa. Torturas e sevícias eram os métodos mais utilizados pelas forças volantes a fim de obter informações sobre o paradeiro do bandido.
O cangaceiro só podia amar com satisfação o cheiro da caatinga molhada depois das chuvas que põem fim às secas, o xiquexique trespassado de espinhos e as colinas sertanejas, seus esconderijos mais usuais. Além disso, apenas a confiança em suas armas e a frieza dos seus punhais. O casamento era uma instituição social que não podia ser desfrutado plenamente pelos bandoleiros das caatingas.
No Barro, Ulisses firmou sólida amizade com o vingador do sertão do Pajeú, passando de chefe de grupo independente a de subgrupo do bando de Sinhô Pereira. Neste ensejo estendeu sua luta a Pernambuco. No mesmo ano que se casou houve uma verdadeira devassa no território controlado pelo velho “Major” José Ignácio. Acossado por volantes cearenses, o famoso coiteiro deixou o nordeste em companhia de Luiz Padre, homiziando-se no Estado do Goiás, onde foi assassinado na localidade de São José do Duro (hoje Estado do Tocantins).
Em 1919, unindo forças com o grupo de Sinhô Pereira, destroçaram volantes aquarteladas na vila de São Francisco de Villa Bella (hoje Serra talhada, Estado de Pernambuco).

Nas batalhas travadas Ulisses teve por companheiros todos os maiorais do banditismo rural que infestava o nordeste, destacando-se entre estes, além do comandante já citado, àquele que se tornou o “rei de todos os cangaceiros”: Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião.

O ataque à vila de São Francisco repercutiu negativamente, pois a perseguição recrudesceu de forma impressionante. Antigos aliados do “Major” José Ignácio que ainda lhe dava proteção no Estado do Ceará garantiam-lhe ainda relativa segurança.

Em Cantinho do Feijão (hoje Santa Helena, Estado da Paraíba), uma pequena localidade situada no alto oeste paraibano, fronteira com o Estado do Ceará, Ulisses firmou base estratégica.

Para tanto, contou com a proteção forçada de um parente relativamente abastado para a época, residente nesta localidade. Chamava-se Alfredo Cardoso D’Arão, homem muito respeitado no lugarejo fundado por Raimundo Luiz, pai do cordelista Raimundo Santa Helena. Mais tarde, no ano de 1927, o fundador, que na ocasião ocupava o cargo de subdelegado da localidade, foi morto num ataque fulminante do bando de Lampião, quando do deslocamento em direção ao Estado do Rio Grande do Norte, objetivando atacar Mossoró.


Usando a propriedade do parente como base avançada, Ulisses desferia ataques violentos às fazendas vizinhas, bem como às localizadas no Estado do Ceará, exigindo tributos dos desditados fazendeiros. Aqueles que o desafiasse enfrentaria sua vingança terrível. Ulisses não era de brincadeira, assim como seu bando sinistro.

O casamento de Argemiro Liberato de Alencar com Dona Maria Mafalda de Alencar (Maria Francisca Sinésio Benevides) aproximou Ulisses do Estado do Rio Grande do Norte. Nesse ensejo, estabeleceu seu ponto estratégico na fazenda Jordão, localizada entre Caraúbas e Patú.

No dia 11 de setembro de 1922, o fim do apogeu da era Ulisses no sertão de quatro Estados foi selado definitivamente. Encontrava-se em missão de observação na localidade Alagoinha de Lavras da Mangabeira (Estado do Ceará) quando foi preso. Encontrava-se sem o bando. Para não chamar atenção havia preferido agir sozinho na missão que fora a última.
Recambiado à cadeia da cidade do Crato (Estado do Ceará), foi minuciosamente inquirido. A transferência do bandoleiro, para a cidade de Pombal, foi requisitada a fim de que ele respondesse inúmeros inquéritos.

No entanto, o real sentido da transferência era dar prosseguimento à “queima de arquivo” que havia sido planejada pelos poderosos caudilhos que o haviam envolvido na vida de crimes.
No mês de setembro do ano de 1923 foi sumariamente fuzilado. Junto com Ulisses morreram dois companheiros de escaramuças que também se encontravam presos. Com Chá Preto e Polvrinha fez a última viagem, sem retorno, pois quem comandava a escolta policial era um dileto soldado-jagunço a serviço de quem o queria morto. Era o fim da valente ovelha desgarrada que a opulência e a miséria do algodão geraram no sertão do Estado da Paraíba.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:


BARRETO, Alício. Solos de Avena. João Pessoa/PB: A Imprensa, s. d.


MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol: O banditismo rural no Nordeste do Brasil. Recife/PE: Ed. Massangana, 1985.
JORNAL:
ALENCAR, U. L. – 1923 – A sinistra autobiografia de um sicário. Correio do Ceará, Fortaleza, (2424):1. (Edição de 04 de abril de 1923).


ENTREVISTAS PESSOAIS:

CARDOSO, Vicência (Dona Lunguinha). Pombal/PB – 15 a 16 de junho de 1992.

SOUSA, Benigna Lourdes de. João Pessoa/PB - 18 a 31 de maio de 1993. 

(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor-adjunto IV do Departamento de Geografia da UERN. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Contatos: Rua Raimundo Guilherme, 117 – Quadra 34 – Lote 32 – Conjunto Vingt Rosado – Mossoró – RN – CEP: 59.626-630 – Fone: 084-3312-0239 – E-mail:
romero.cardoso@gmail.com.



Prof. Ms. José Romero Araújo Cardoso

Ulisses Liberato de Alencar - A sinistra autobiografia de um sicário

Ulisses Liberato de Alencar

A sinistra autobiografia de um sicário

Aos vinte e quatro dias do mês de Janeiro de mil novecentos e vinte e três (1923) às dezoito horas, nesta cidade do Crato, no Paço da Câmara Municipal, presentes o primeiro suplente de delegado de polícia em exercício, major Raimundo de Moraes Brito, comigo escrivão de seu cargo, abaixo nomeado, os senhores capitão José dos Santos Carneiro e o tenente Antônio de Mattos Dourado, ai compareceu, em virtude de Portaria nesta data, desta delegacia, o indivíduo Ulisses Liberato de Alencar, de vinte e nove anos de idade, natural do município de Pombal, Estado da Paraíba, filho legítimo de Francisco Liberato de Alencar, almocreve; sabe ler e escrever, casado. Interrogado pelos diversos motivos porque se acha preso, respondeu: "Que residia na fazenda "Estrelo" do município de Pombal, Estado da Paraíba, tendo se retirado daí no mês de outubro do ano de mil e novecentos e dezoito (1918), por motivo de questões com o chefe do município, doutor José Queiroga, vindo residir na fazenda "Trapiá", município de Milagres, neste Estado, debaixo da proteção do "major"José Ignácio; que residiu no "Trapiá", até o mês de outubro de mil novecentos e dezenove (1919); que durante o tempo que esteve na companhia de José Ignácio, nunca tomou parte em combates ou ataques a pessoa alguma, a não ser ter ido deixar a importância de quatrocetos mil réis (400$000), enviada por José Ignácio a ser entregue aLuiz Padre foto 1 e Sebastião Pereira foto 2...



... no lugar São Francisco, no Estado de Pernambuco; que ao chegar a São Francisco, no dia seguinte ao da sua chegada, foi o grupo atacado pela força de Pernambuco, morrendo nessa ocasião nove (9) soldados; que de São Francisco, voltou ao "Trapiá"; que assistiu ao tiroteio, que determinou a morte de João Flandeiro, sendo autores desse assassinato Sebastião Pereira, Tiburtino, filho de José Ignácio e José Nogueira; que não sabe se atirou, mas conduzia no seu bornal sete caixas de balas e que no final do tiroteio, restavam-lhe trinta balas; que estavam presentes neste tiroteio Sebastião Pereira, Tiburtino, José Ignácio de Sousa, Raimundo Agostinho, Raimundo Tabaqueiro, Raimundo Patrício, Patrício de Tal, filho de João Raimundo, Cornélio, vulgo Chico Caixão, ou ainda Parafuso, José Nogueira Deodato, vulgo Rouxinol, Satyro, vulgo Meu Primo, Manoel Vaqueiro, Manoel Sant'Ana, Firmino Miranda, Manoel Benedito, Antônio Dino, vulgo Pilão, José de Genoveva, José Pedro, tendo ainda a presença dele, respondente; que relativamente ao fogo de Coité, tem a dizer que, estando no "Barro", assistiu a saída para Coité, de quarenta e oito homens chefiados por Sebastião Pereira, Tiburtino e José Nogueira; que o fim principal era, atacando Coité, seguirem depois pelo município de Milagres e nos lugares circunvizinhos àquele município forçando assim a força pública a sair de Milagres, para atacar o "Barro" aproveitando-se o grupo da ocasião, e atacar Milagres; que no "Barro" existiam duzentos e sessenta (260) homens, todos em armas, prontos a agir contra a força pública; que a ordem sobre o ataque de Coité era determinação de José Ignácio de pegarem o Padre Lacerda, obriga-lo a dar trinta contos de réis........ (30:000$000); que ele, respondente, não assistiu ao tiroteio por estar doente; que do Coité o grupo dirigiu-se à fazenda "Queimadas" sendo ali atacado pela força, morrendo o "Pitombeira"; que isto soube por Sebastião Pereira; que dois dias depois mais ou menos depois do fogo de "Queimadas", veio até "Barreiros" o "major" José Ignácio, acompanhado dele, respondente, e mais outros companheiros; que estiveram em casa do doutor Floro Bartolomeu da Costa, regressando ao "Barro" no mesmo dia, e que no caminho José Ignácio disse a ele, respondente, que devido ao acordo havido entre o doutor Floro e Manuel Chicote, ele, José Ignácio, baixava as armas; que já no "Barro", José Ignácio, estando ele, depoente, em casa de Almindo Lourenço, no lugar "Carnaúba" perto do "Barro", foi convidado por José Ignácio a fim de ir até a Paraíba, acompanhando outros companheiros, a fim de, no modo de dizer de José Ignácio, tirar ali as despesas da questão; que depois de dizer que não podia ir à Paraíba devido aos motivos atrás alegados, resolveu satisfazer o pedido de José Ignácio seguindo em companhia de Sebastião Pereira e mais vinte companheiros, à Paraíba, levando a ordem de José Ignácio, que era a seguinte: que deviam atacar Valdevino Lobo, Adolfo Maia e Rochael Maia, residentes, o primeiro em Dois Riachos, município de Catolé do Rocha; o segundo e o terceiro noutras fazendas, perto do primeiro; quando o respondente e seus companheiros ao chegarem perto e Jericó, foram atacados por autoridades do lugar, forçando o grupo a entrar no povoado, fazendo roubos, depredações, etc.; que nesse lugar seguiram para a casa de Antônio Saldanha, no município de Catolé do Rocha, fazenda "Santana" dormindo li; que no dia seguinte seguiram fim de atacar a casa de Valdevino; que chegando adiante uma légua distante da casa de Antonino, Sebastião Pereira disse a ele, respondente, que a ordem de José Ignácio era fazer o que Santa Cruz havia feito anteriormente, merecendo isto a aprovação dele, depoente; que ao chegarem na casa de Valdivino, roubaram, conforme declaração de Sebastião Pereira, cerca de dois contos e oitocentos mil réis......(2:800$000) e cento e vinte (120) libras esterlinas, cometendo toda a sorte de depredações; que ele, respondente, nada tirou desta casa; que sendo separados, dois grupos ficando m casa de Valdivino, Sebastião Pereira, a fim de seguir atrás, ele, respondente, seguiu por uma vereda com o plano de passar na casa de Adolfo Maia, de passagem; que ao chegar em frente da dita casa já encontrou Sebastião ali, onde já haviam depredado tudo, não sabendo quanto roubaram desse senhor; que ainda garantiu a vida de Adolfo Maia, que não chegaram a ir à casa de Rochael Maia, resolvendo o grupo voltar ao "Barro"; que ali chegando no dia seguinte José Ignácio o recompensou com a importância de duzentos mil réis (200$000); que não sabe avaliar a quanto montou o roubo na Paraíba, sabendo porém que todo o produto adquirido na viagem , foi todo entregue a José Ignácio, que, depois de tudo, refugiou-se em Juazeiro onde passou cerca de dois meses; eu dentro destes dois meses recebeu um recado de dona Rosa Amélia residente nesta cidade do Crato, filha do senhor João Alves, por intermédio de José Terto, que ele, respondente, caso não pudesse vir até esta cidade à sua residência, lhe mandasse um rifle de oito tiros; que em vista desse recado e por não poder vir até aqui, mandou o rifle por intermédio do referido José Terto; que tendo ido ao "Canto do Feijão", Paraíba, onde demorou quinze (15) dias, regressando ao Juazeiro recebeu ele, respondente, uma carta da referida prima Dona Rosa Amélia, convidando-o a vir até esta cidade, que, atendendo ao pedido veio em companhia de José Terto, desarmado, à noite, chegando cerca das oito (8) horas da noite, apeando-se ambos em casa da mesma prima; que isto se deu no mês de Agosto, não se lembrando a data nem o dia da semana; que ali chegando, esta mesma sua prima lhe declarou que precisava e insistia que ele tomasse a sua defesa, pois, havia pessoas que dirigiam a ela pilhéria e indiretas motivando isto ela estar muito mal satisfeita; que a sua prima não chegou a declarar os nomes das pessoas de quem ele, respondente, devia se vingar; que sabe que eram duas, e que tinham sido sócios de seu marido a quem conhece por Nênêm; que a mesma sua prima nunca lhe declarou os nomes dessas pessoas; que ele, respondente, esteve em casa de Dona Rosa Amélia seis vezes, dizendo ela todas as vezes que a ocasião era quando passassem as pessoas em frente à casa dela, e quando dirigissem pilhérias, ele, respondente, sair e dizer aos mesmos que não deviam fazer aquilo, pois podiam se dar mal, de outra vez; que o plano de Dona Rosa Amélia e seu marido era invadir a casa de negócio do Senhor Antônio Fernandes, retirar da mesma um dinheiro, que diziam a eles pertencer, sendo autor, dessa empresa ele, respondente; que José Terto estava nesta ocasião dizendo, depois a ele, respondente, que há tempo já havia sido convidado para tal empresa, escusando-se o mesmo José Terto de isso fazer; que da casa onde se hospedava, Rosa Amélia mostrava quase em frente uma casa grande, que dizia ser de uma pessoa sua inimiga rica e que era muito fácil de roubá-la; que não se lembra do nome deste, mas sabe que essa pessoa é farmacêutico nesta cidade; que também tinha uma outra pessoa que se devia assassinar, sabendo ele, respondente, ser um advogado, conhecido por José Bernardino; que então ele, respondente, declarou à Dona Rosa Amélia que não podia e nem devia fazer isto, pois ela era pessoa de responsabilidade e não devia fazer isto; que depois desse dia ele, respondente, ainda estando no Juazeiro, recebia constantemente pedido da mesma, a fim de fazer o "trabalho"; que depois disto ainda ela, Rosa Amélia, pediu a ele, respondente, que escrevesse a Tiburtino, filho de José Ignácio, a fim de que ele mandasse seus homens a executar o plano acima referido; que ele, respondente, mandou dizer a Rosa Amélia que não escrevia o que ela pedia; que ainda em Juazeiro, recebeu outra carta de D. Rosa Amélia para jantar em sua companhia, nesta cidade; que, atendendo ao pedido, ao chegar fizeram ciente que o dr. Audálio, encarregado da luz desta cidade, queria se avistar com o respondente, negando-se ao pedido; que disseram-lhe que o mesmo queria conhecer ele, respondente; que o que deu motivo a Rosa Amélia chamar o respondente à sua casa e propor-lhe os planos acima referidos, fora aconselhado por Arsênio Araruna, genro de José Ignácio, conforme declarações da mesma Rosa Amélia a José Terto; que um dia, quando estava nesta cidade, passou pela frente, ou na alçada do sr. Antônio Fernandes; que ao passar na frente de casa, foi até adiante e depois passou novamente pela calçada; que voltando resolveu não fazer o que ia fazer, por ordem da mesma dona Rosa Amélia; que nesta ocasião estava armado com um revólver e um punhal; que o plano era passar em frente à casa do Sr. Antônio Fernandes e assassiná-lo; que isto era conforme as ordens de Dona Rosa Amélia; que, como já disse, ao passar em frente à casa do mesmo senhor e chegando adiante refletiu e resolveu não fazer o que estava incumbido de realizar, pois nunca tinha assassinado pessoa alguma para ganhar dinheiro; que tendo sido chamado nesse dia, ao chegar à casa de dona Rosa Amélia, esta lhe disse que tinha sido intimada a pagar ao senhor Antônio Fernandes cerca de 18 contos, dizendo mais ela que, daquele dia não passava; que o que resolveu é o declarado atrás de ter resolvido não levar a efeito a ordem; que a casa do sr. Antônio Fernandes foi indicada a ele, respondente, pelo sr. Neném que de uma esquina apontou onde e como era localizada a casa, dizendo-lhe que era um senhor idoso e que costumava, à noite, sentar-se com sua família na calçada da casa; que, de posse destas informações, foi ao ponto indicado atrás, resolvendo fazer o que já disse: nada cumprir a respeito da ordem recebida; que na ocasião em que ele, respondente, estava em casa de don Rosa Amélia, esta e seu marido descreveram as casas, dizendo que sendo o Crato atacado pelo grupo pedido a ele, respondente, seriam ocultos no muro da sua casa (dela) e quando já toda a cidade adormecida, sairiam à rua e atacariam as casas já referidas, inclusive a do "Coronel" Antônio Luiz, onde se encontraria muito dinheiro, inclusive barras de ouro; disse mais que uma das vezes em que esteve na cidade, em casa de dona Rosa Amélia, ao retirar-se, esta meteu em seu bolo uma nota de cem mil réis, dizendo ser para ele, respondente, comprar de charutos; que ao pensar em não realizar mais o plano combinado com dona Rosa Amélia, voltou à casa desta e ai declarou à mesma que não podia fazer o que ela pedia, retirando-se imediatamente para o Juazeiro, dizendo ainda à dona Rosa Amélia que o não mandasse mas chamar; que, no dia 5 de setembro o ano passado, d. Rosa Amélia mandou um portador ao Juazeiro deixar um cavalo ao respondente e acompanha-lo ao sítio "Baixio", no município de Santana do Cariri, onde reside o pai dela, sr. João Alves de Oliveira; que no dia 6 de setembro, à noite, cerca de 8 horas, saiu de Juazeiro, acompanhado pelo mesmo portador de nome José Izidoro da Costa, passando em Baixa Dantas, deste município, chegando em casa de João Alves a 7; que no outro dia chegava ao "Baixio" um portador conduzindo um telegrama de Rosa Amélia avisando a seu pai que se preparasse que ia ser atacado por um grupo e cangaceiros; que no dia 8 chegava ao "Baixio" um senhor de nome Raimundo Valentim, acompanhado por cerca de 15 homens armados que, com outros já reunidos, formavam um grupo de 25 homens; que, dois dias depois, retirava-se ele, respondente, com destino a Aurora; que de Aurora foi até Barreiros, de Barreiros segui até S. João (na Paraíba) e, de S. João indo a Alagoinha, foi preso pela polícia.

Em tempo: achava-se presente à audiência o sr. Dr. Alberico Ribeiro Salles Guimarães, promotor de Justiça da comarca.

E por nada mais haver declarado, deu-se por concluído o presente auto que, lido e achado conforme o assinou o Delegado, o respondente, os oficiais presentes e o dr. Promotor de Justiça, Eu, José Carvalho, Escrivão, o escrevi. (Ass.) Raimundo de Moraes Britto, Ulisses Liberato de Alencar, Alberico Ribeiro Salles Guimarães, José dos Santos Carneiro, Antônio Mattos Dourado.

FONTE: Alencar, U. L. - 1923 - A sinistra autobiografia de um sicário. Correio do Ceará, Fortaleza, (2424) : 1. (Edição de 04 de abril de 1923).


Texto gentilmente enviado por José Romero

Museu do Sertão. Por: Benedito Vasconcelos Mendes


Museu do Sertão (1)

Benedito Vasconcelos Mendes (2)

 

O Museu do Sertão é um museu temático. Tem como objetivos preservar e exibir objetos, utensílios domésticos, implementos agrícolas, apetrechos de trabalho, equipamentos e máquinas do setor produtivo dos habitantes do sertão semiárido nordestino. Foi inaugurado em 31 de agosto de 2003 e está localizado na Fazenda Rancho Verde, às margens da Estrada da Alagoinha, a 4 km da cidade de Mossoró-RN. É de propriedade do Engenheiro Agrônomo Benedito Vasconcelos Mendes e está disponível para receber visitantes que tenham interesse cultural. Não é cobrado entrada e os interessados poderão agendar visitas pelo telefone (84) 9972-2139.

Com base nas peças do acervo do Museu do Sertão é possível traçar um perfil muito aproximado do homem regional, resgatando sua história de vida, sua religiosidade, sua culinária, sua arte, sua cultura, suas tradições e principalmente, suas atividades produtivas.

O meio físico do sertão seco e quente do Nordeste brasileiro, com seu clima semiárido tropical, com suas secas catastróficas, com suas chuvas reduzidas e altamente variáveis no tempo e no espaço, com seus solos pobres, pedregosos ou excessivamente arenosos, com seus rios intermitentes e com sua vegetação raquítica, seca e espinhenta, moldou uma civilização típica desta região, que Paulo de Brito Guerra denominou de “Civilização da Seca”. Esta civilização sedimentou sua identidade cultural no período de 1880 a 1980, quando a população sertaneja tornou-se densa e as vilas e cidades regionais prosperaram, devido a introdução de outras atividades econômicas, que vieram se somar à pecuária bovina. Foi a partir de 1880 que se expandiram a cultura do algodão mocó e o extrativismo da cera de carnaúba, da borracha de maniçoba, do óleo de oiticica e da fibra de caroá, oferecendo alternativas econômicas, aos sertanejos, além da criação de gado e da fabricação de farinha de mandioca, de rapadura e de cachaça. O final do período áureo da Civilização da Seca coincidiu com a introdução da praga do bicudo do algodoeiro no Brasil, no início da década de 1980, que fez com que as fazendas do sertão semiárido deixassem de ser lucrativas, o que provocou o empobrecimento e o despovoamento regional. Concomitante com o estabelecimento da referida praga do algodoeiro, ocorreu a chegada da eletrificação rural no interior do Nordeste, que possibilitou o uso do motor elétrico nas agroindústrias (Casa de Farinha, Engenho de Rapadura, Alambique de Cachaça e outras) e a chegada da televisão nas vilas e cidades sertanejas, alterando o hábito e os costumes do povo do sertão.

A Civilização da Seca possui hábitos, costumes, tradições, crenças e religiosidades peculiares. Esta Civilização da Seca foi capaz de originar um cangaceirismo, uma poesia popular, uma musicalidade, uma culinária e uma arquitetura de taipa próprios do semiárido.

A religiosidade messiânica, às vezes fanática, devido ao endeusamento dos líderes religiosos, que era praticada no sertão, deu origem, juntamente com o sincretismo religioso baiano, a um tipo muito particular de prática religiosa.

O Padre Ibiapina, que se ordenou com idade madura (46 anos), após ter sido noivo, Professor da Faculdade de Direito de Olinda, Advogado, Juiz de Direito e Deputado, foi o primeiro líder religioso do Nordeste a exercitar uma prática religiosa diferenciada, feita no templo e fora dele, cuidando do espírito e do corpo dos mais necessitados. Ele percorreu por quase três décadas os sertões do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e de Pernambuco, construindo capelas, cemitérios, açudes, poços e, principalmente, as famosas Casas de Caridade, que eram asilos para crianças órfãs e velhos abandonados. Foi o missionário da caridade, o peregrino que evangelizou e transmitiu a fé, e também, que organizou e colaborou com o crescimento material e social do povo.

O Beato Antônio Conselheiro tinha grande admiração pelo trabalho missionário executado pelo Padre Ibiapina, baseado na assistência espiritual e social dos mais pobres, unindo oração e ação. Conselheiro espelhou-s na prática religiosa de Ibiapina para suas ações como beato. Com exceção das Casas de Caridade, Antônio Conselheiro construía tudo que Ibiapina tinha construído: capelas, cemitérios, açudes... Conselheiro não fazia Casas de Caridade porque não merecia a atenção das elites das vilas e cidades que visitava, pois estes asilos eram mantidos pela classe abastada do lugar. Antônio Conselheiro realizava uma prática religiosa marginal, somente para os miseráveis, não aprovada pelos padres e nem apoiada pelos ricos e letrados da região. Para alimentar a fé ele pregava o Evangelho, fazia orações, entoava cânticos e louvores e, para alimentar e vestir o corpo, ele fundou o Arraial Bom Jesus (Canudos), onde o trabalho era comunitário e a colheita socializada.

O Padre Cícero de Juazeiro foi o terceiro grande líder religioso a surgir no sertão nordestino, com uma atuação religiosa marcante em Juazeiro do Norte, no Ceará, onde ainda hoje é venerado pelos romeiros que para lá se deslocam, vindos dos mais longínquos rincões sertanejos.

O Beato Zé Lourenço, discípulo e auxiliar do Padre Cícero, estabeleceu-se em uma propriedade do Padre Cícero denominada Caldeirão, próxima a Juazeiro do Norte, onde organizou uma Fazenda Comunitária com os romeiros de Juazeiro. Foi líder espiritual e administrativo da comunidade de Caldeirão que, depois de Canudos do Beato Antônio Conselheiro, foi a segunda experiência socialista de caráter religioso que ocorreu no sertão nordestino.

O Frei Damião, italiano de nascimento e com formação religiosa na Itália, dedicou quase toda sua longa vida sacerdotal às Santas Missões nas vilas e cidades sertanejas.

O cangaceirismo, que surgiu como resposta ao abandono, à miséria e às injustiças sociais do povo do sertão, teve como principais chefes de bandos os cangaceiros: Cabeleira, Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Lampião e Corisco. A índole do caboclo nordestino reagiu aos privilégios e a prepotência dos poderosos, originando, inicialmente o cangaceiro justiceiro, como bem demonstra a atuação de Jesuíno Brilhante e, depois, o cangaço extorquidor e sanguinário. A raça nordestina (o caboclo) formada pelo sangue do aventureiro português, do índio e do negro, herdou a valentia e o espírito libertário dos guerreiros e nômades cariris. Os indígenas do sertão nordestino (cariris), eram tão valentes que retardaram a colonização da região. A Guerra dos Bárbaros, no sertão norte-riograndense, ilustra bem o instinto guerreiro dos nativos caatingueiros. Os gentios do semiárido eram nômades e valentes, como nômades e valentes foram também os cangaceiros.

Além do cangaceiro, na Civilização da Seca, dois tipos humanos se destacaram pela habilidade e coragem. No sertão, o vaqueiro, com sua indumentária apropriada (vestia) para o manejo do gado na mata esgalhada e espinhenta, e, no litoral semiárido, onde a caatinga avança até a praia, o jangadeiro, que, com sua frágil jangada de paus roliços, se aventurava em alto mar, enfrentando o perigo dos ventos e das ondas.    

A poesia popular passou a ser estudada e valorizada pelos intelectuais e pelas academias graças à genialidade poética do cearense Patativa do Assaré. Antes de Patativa, outros cordelistas, também geniais, já tinham imortalizado este gênero de poesia, dentre eles, os paraibanos Leandro Gomes de Barros, Romano de Mãe d´Água e Inácio da Caatingueira, os norte-rio-grandenses Eliseu Ventania e Manuel Serrador e, mais recentemente, os pernambucanos Irmãos Batista (Otacílio, Dimas e Lourival).

A música regional tornou-se conhecida em todo país graças ao gênio musical do pernambucano Luiz Gonzaga e do cantor e ritmista Jackson do Pandeiro, que introduziram o baião, o xote e o xaxado no cerne da música popular brasileira, sendo hoje de aceitação em todo território nacional.

A culinária do Nordeste brasileiro, preparada com poucos ingredientes não perecíveis, que no passado podiam ser armazenados de um ano para outro, portanto, podendo ser adquiridos mesmo durante as secas, como farinha e goma de mandioca, rapadura, queijo de coalho, manteiga de garrafa, carne seca e feijão-de-corda, é hoje conhecida e apreciada nacionalmente.

A Civilização da Seca originou uma arte diferente daquela encontrada no litoral úmido açucareiro, que corresponde à Zona da Mata, região rica, onde floresceu a arte contemplativa, baseada na pintura e na escultura. Quando se visitam as capelas, as igrejas, os conventos, os mosteiros, os solares e os palacetes de Olinda e Recife e de Salvador, observa-se a exuberância das artes plásticas, onde as pinturas e as esculturas servem de ornamentação a estes prédios de refinada arquitetura, construídos pela riqueza proporcionada pelo ciclo da cana-de-açúcar. Ao contrário da arte do litoral açucareiro, a arte sertaneja é utilitária e não contemplativa. Os artistas do sertão direcionavam toda a sua criatividade, todo seu talento, toda sua inventividade para engendrar objetos úteis, para facilitar a vida nesta região semiárida, para que a população pudesse melhor sobreviver por ocasião das secas. Não eram artistas plásticos, os que faziam a arte no sertão. Eram mestres de ofício, como os velhos carapinas, ferreiros, louceiros, tanoeiros, flandeiros, rendeiras e muitos outros artífices, que exercitavam as artes e os ofícios nos sertões atormentados pelas secas.

A riqueza da região canavieira fez florescer as artes plásticas, valorizando o “belo”, enquanto a pobreza do Polígono das Secas fez surgir novos artefatos de uso, que auxiliaram na sobrevivência das populações locais durante as secas, valorizando assim o “útil”. Uma das poucas manifestações artísticas somente contemplativa que surgiu no Polígono das Secas foi a expressada pelo Mestre Vitalino de Caruaru – PE, que idealizou e difundiu a feitura de “bonecos de barro”, representando cenas do cotidiano do homem regional. As rendas, os bordados, o artesanato de palha e as louças de barro, embora apresentem beleza plástica, são peças de uso diário da população.

No Museu do Sertão a arte que se observa é a que está presente no gigantesco caixão de farinha, no reforçado caixão de rapadura, na tosca prensa usada na Casa de Farinha, na complexa bolandeira para o uso da tração animal, no robusto carro de boi, no pilão, no tonel para transportar água e em muitos outros artefatos usados no setor produtivo sertanejo do passado. Os artesãos de então utilizavam as matérias-primas que a natureza oferecia em abundância: a madeira, o couro, o barro, o algodão, a palha e o cipó. Quase tudo era feito com estas matérias-primas naturais, pois, somente muito tempo depois, foi que apareceram as matérias-primas de origem industrial, como o ferro, o aço, o bronze, o cobre, o alumínio, o vidro, a borracha e o plástico. As rústicas agroindústrias do passado, como a Casa de Farinha, o Engenho de Rapadura, o Alambique de Cachaça, o Descaroçador de Algodão, a Casa de Beneficiar Cera de Carnaúba, a Oficina de Preparar a Fibra de Caroá, o Galpão de Preparo da Borracha de Maniçoba, a Usina de Óleo de Oiticica, a Cozinha de Queijo de Coalho e a Sala de Fiar e Tecer, eram montadas com base na engenharia empírica dos artífices regionais. O saber popular transmitido pela tradição oral somava-se ao talento do artesão, resultando na manufaturação dos utensílios domésticos, apetrechos de trabalho, implementos agrícolas e equipamentos do setor produtivo.

O Museu do Sertão tenta resgatar a engenharia popular, o saber empírico transmitido de pai para filho pela linguagem oral, que estão materializados nos objetos que foram construídos e usados pelo povo no seu dia-a-dia, nos sertões semiáridos. Traços dos costumes, das tradições, do conhecimento empírico, do modus vivendi, da sensibilidade artística e da vivência cultural do povo regional de antigamente podem ser interpretados a partir do acervo material que está presente no Museu do Sertão. As peças utilitárias existentes no Museu do Sertão são testemunhas perenes dos valores não materiais e materiais dos antigos sertanejos que viveram nas caatingas do Nordeste brasileiro.

O Museu do Sertão é formado por uma Casa de Taipa, com sua mobília e utensílios domésticos mais tradicionais, de uma Bodega, com seu aspecto típico sertanejo e três Galpões de Exposição. No Galpão número 01 estão expostas os equipamentos máquinas do setor procutivo, principalmente das rústicas agroindústrias sertanejas. No Galpão número 02 estão exibidos os apetrechos de trabalho dos velhos Mestres de Ofício (carpinteiro, tanoeiro, ferreiro, flandeiro, seleiro e outros) e dos antigos profissionais de serviço (alfaiate, barbeiro, costureira, etc.). No Galpão número 03, estão as bolandeiras, que são grandes engrenagens de madeira que possibilitam o uso da tração animal, para mover moendas de cana, caititu de Casa de Farinha, rolos de descaroçar algodão, máquinas de pilar arroz e outros equipamentos da arcaica indústria sertaneja de então.   

 
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

 
GUERRA, P. de B. A Civilização da Seca. Fortaleza/CE: DNOCS, 1981. 324p.


(1) Palestra realizada por ocasião da visita ao Museu do Sertão do Secretário Executivo do MAPA, Dr. Luiz Gomes de Souza e dos Superintendentes Federais de Agricultura nos Estados do Norte e Nordeste, no dia 26 de agosto de 2006.

 
(2) Benedito Vasconcelos Mendes é Engenheiro Agrônomo, Professor, Mestre e Doutor, Membro da Academia de Ciências do Rio Grande do Norte e Superintendente Federal da Agricultura no Rio Grande do Norte.

 
FONTE: MENDES, Benedito Vasconcelos. Museu do Sertão. Natal/RN: Superintendência Federal de Agricultura no Estado do Rio Grande do Norte, 2006. 18p.

 
Prof. Dr. Benedito Vasconcelos Mendes 

 
Peça exposta no Museu do Sertão

 
Peças expostas no Museu do Sertão

 
Entrada do Museu do Sertão

 
Peça exposta no Museu do Sertão


 
 

 
Prof. Dr. Benedito Vasconcelos Mendes
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