quarta-feira, 7 de julho de 2010


Análise dos cordéis de José Pacheco (A Chegada de Lampião no Inferno) e Rodolfo Coelho (A Chegada de Lampião ao Céu)

(*) Tânia Maria de Sousa Cardoso

Distantes, talvez, em suas biografias, José Pacheco e Rodolfo Coelho se irmanavam em relação ao talento inquestionável dos dois, o que fazia com que o leitor esquecesse algumas das diferenças mais marcantes, tal como o fato da linguagem de Rodolfo ser mais elevada, menos propensa às feições ortográficas da linguagem mais popular de Pacheco.

O talento dos autores, que os projetou como dois dos maiores nomes da literatura de cordel, pode ser claramente observada nos dois folhetos selecionados por nós para análise: A Chegada de Lampião no Céu, de Rodolfo, e A Chegada de Lampião no Inferno, de José Pacheco 3.

A publicação de A Chegada de Lampião no Inferno teve grande repercussão, alcançando um alto número de exemplares vendidos. Ilustrado com xilogravuras, o folheto foi lançado pela Editora Prelúdio, de São Paulo, com capa em cores. É um dos cordéis presentes na Antologia da Literatura de Cordel organizada por Sebastião Nunes Batista (1977), demonstrando a grandeza do cordelista, que influenciou vários outros poetas, dentre os quais estão Severino Gonçalves e o próprio Rodolfo Coelho Cavalcante, cuja versão da chegada do rei do cangaço no Inferno, tema freqüente na literatura popular, também tornou-se um best seller nordestino.

Em A Chegada de Lampião no Céu, Rodolfo Cavalcante descreve o momento que Lampião, depois de fugir do Inferno, onde assassinara um e atirara no próprio Lúcifer, força sua entrada no Céu, ameaçando, inclusive, de lançar mão do rifle que trazia consigo. No Céu, Lampião exige uma audiência com Padre Cícero, Maria e Jesus. Em seguida, é instaurado uma espécie de tribunal, no qual Maria, mãe de Jesus, defende o cangaceiro das acusações de Ferrabrás, enviado de Lúcifer. Depois da peleja entre promotoria e defesa, Lampião é sentenciado a passar um período no Purgatório para “alcançar a salvação”.

Já em A Chegada de Lampião no Inferno, José Pacheco narra o momento em que Lampião, impedido de entrar no Inferno, ameaça fazer um escarcéu. Em resposta, o diabo reúne um exército de demônios para enfrentar Lampião. O saldo da briga é terrível: além de vários dos homens de Satanás mortos, Lampião provoca um incêndio no mercado local e no armazém de algodão, o que leva o diabo a lamentar o prejuízo. Por fim, impedido de entrar no Céu e no Inferno, Lampião toma caminho ignorado, embora o narrador imagine que talvez tenha o cangaceiro voltado para o sertão, tal como a alma penada de Pilão Deitado, homem de Lampião que teria morrido em trincheira e que contara ao narrador a história descrita no folheto.

Em uma visada ligeira das duas obras, o leitor é atraído de imediato para a contradição dos títulos, o que pretensamente denunciaria uma diferença ideológica no sentido dos autores avaliarem a figura de Lampião: enquanto um põe o cangaceiro no Céu, lugar de absolvição, outro o insere no Inferno, lugar de dores, de castigo e de perdição.

Por outro lado, uma apreciação mais profunda das duas obras, logo evidencia as muitas aproximações entre os cordéis. Observa-se, por exemplo, que a fama de Lampião, mesmo no outro mundo, continua intocada, inquestionável nos dois folhetos. Daí que a simples menção de seu nome provoca temor, o que afirma a grandeza de seus feitos na terra. É por isso que tanto São Pedro no folheto de Rodolfo quanto o diabo no cordel de Pacheco manifestam um claro desconforto ao conhecer a identidade do cangaceiro:

São Pedro desconfiado

Perguntou ao valentão

Quem é você meu amigo

Que anda com este rojão?

Virgulino respondeu:

- Se não sabe quem sou eu

Vou dizer: Sou Lampeão.

São Pedro se estremeceu

Quase que perdeu o tino

Sabendo que Lampeão

Era um terrível assassino

Respondeu balbuciando

O senhor...está...falando

Com...São Pedro...Virgulino!

(A Chegada de Lampião no Céu, estrofes II e III)

Lampeão é um bandido

Ladrão da honestidade

Só vem desmoralizar

A minha propriedade

E eu [o diabo] não vou procurar

Sarna para me coçar

Sem haver necessidade

(A Chegada de Lampião no Inferno, estrofe XII)

Por fim, percebe-se nos dois cordéis uma clara metamorfose no Céu e no Inferno, que perdem as características sobrenaturais, convertendo-se em espaços terrenos, o que permite que Lampião aja como procedia nos sertões nordestinos, onde punia com violência desmedida os fazendeiros que lhe negassem pousada. Por isso, o cangaceiro não hesita em ameaçar o porteiro do Inferno e agir de forma atrevida para com São Pedro ao lhe negarem entrada naqueles lugares:

Lampeão foi no inferno

Ao depois no céu chegou

São Pedro estava na porta

Lampeão então falou:

- Meu velho não tenha medo

Me diga quem é São Pedro.

E logo o rifle puxou

Lampeão disse está bem

Procure que quero ver

Se acaso não tem aí

O meu nome pode crer

Quero saber o motivo

Pois não sou filho adotivo

Pra que fizeram-me nascer?

(A Chegada de Lampião no Céu, estrofes I e VI)

Lampião disse: - Vá logo

Quem conversa perde hora

Vá depressa e volte já

Eu quero pouca demora

Se não me derem ingresso

Eu viro tudo as avessas

Toco fogo e vou embora

(A Chegada de Lampião no Inferno, estrofe IX)

O Inferno, na verdade, mais parece uma repartição pública, no qual o diabo, como chefe, se aboleta no gabinete central.

O vigia disse assim

- Fique fora que eu entro

Vou conversar com o chefe

No gabinete do centro

Por certo ele não lhe quer

Mas, conforme o que eu disser

Eu levo o senhor pra dentro

(A Chegada de Lampião no Inferno, estrofe VIII)

O Céu de Rodolfo, por sua vez, é como o descrito no livro bíblico de Jó, ao qual o diabo tem livre acesso:

E disse[ Lampião]: Ó Mãe Amantíssima

Dá-me a minha salvação

Chegou nisto o maioral [o diabo]

Com catinga de alcatrão

Dizendo não pode ser

Agora só quero ver

Se é salvo Lampeão

(A Chegada de Lampião no Céu, estrofe XIX)

Num dia em que os filhos de Deus [os anjos] vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles ( ... ). E perguntou o Senhor a Satanás : Observaste a meu servo Jó ? porque ninguém há na Terra semelhante a ele ( ... ). Então respondeu Satanás: porventura Jó debalde teme a Deus? Acaso não cercaste com sebe a ele, a sua casa e a tudo quanto tem ? ( ... ). Estende, porém, a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face. Disse o senhor a Satanás : Eis que tudo quanto ele tem está em teu poder; somente contra ele não estendas a mão. E Satanás saiu da presença do Senhor (Bíblia Sagrada: Livro de Jó, capítulo 1, versículos 6 e de 8 a 12 ).

Essa representação, a propósito, é também utilizada por Goethe em sua obra Fausto, ao descrever no “Prólogo no céu” a visita de Mefistófeles (o diabo, a representação do Mal) ao Altíssimo (Deus, o Bem Supremo), resultando em uma “aposta” entre ambos acerca da fidelidade do Doutor Fausto, protagonista da história, aos propósitos divinos, numa clara retomada ao episódio que antecede ao drama de Jó, patriarca bíblico:

MEFISTÓFELES

Já que, Senhor, de novo te aproximas,

Para indagar se estamos bem ou mal,

E habitualmente ouvir-me e ver-me estimas,

Também me Vês, agora, entre o pessoal [ entre os anjos ]

( ... ).

O ALTÍSSIMO

Nada mais que dizer-me tens ?

Só por queixar-te sempre vens ?

Nada, na Terra, achas direito enfim ?

( ... )

Do Fausto sabes ?

( ... ).

MEFISTÓFELES

De forma estranha ele vos serve, Mestre !

( ... )

O ALTÍSSIMO

Se em confusão [ Fausto ] me serve agora,

Daqui em breve o levarei à luz.

Quando verdeja o arbusto, o cultor não ignora.

Que no futuro fruto e flor produz.

MEFISTÓFELES

Que apostais ? perdereis o camarada;

Se o permitirdes, tenho em mira.

Levá-lo pela minha estrada !

( ... ).

O ALTÍSSIMO

Também nisso eu te dou poderes plenos;

( ... )

( Fecha-se o céu, os arcanjos se dispersam ).

A partir de todas essas aproximações entre os cordéis de Pacheco e de Rodolfo é que se pode perceber o caráter de revanche poética, de contestação popular às condições de vida das camadas mais sofridas, subjacente às duas narrativas.

Observemos, por exemplo, que embora deslocada para os lugares do além-morte, é a vida terrena, o dia-a-dia de dores a matéria-prima dos dois cordelistas. Isso se evidencia, entre outras evidências, a partir da forma como Pacheco descreve o Inferno, atribuindo ao reino de Lúcifer as mesmas características do sertão nordestino, ou, mais propriamente, do Polígono das Secas, região do semi-árido nordestino conhecida como caatinga, uma área com cerca de 700.000 km de extensão marcada pelos longos períodos de estiagem:

Reclamava Satanás

- Horror maior não precisa

Os anos ruins de safra

E mais agora essa pisa

Se não houver bom inverno

Tão cedo aqui no inferno

Ninguém compra uma camisa

(A Chegada de Lampião no Inferno, estrofe XXIX)

Nesse Inferno-aqui-e-agora, Lampião peleja com um diabo “humanizado”, pois, totalmente despido de suas feições e atitudes sobrenaturais, o “senhor das trevas” comporta-se como um ser humano comum, o que explica sua surpresa, entre cômica e inacreditável, de somente pessoas de má índole baterem às portas do Inferno:

O vigia foi e disse

A Satanás no salão:

- Saiba Vossa Senhoria

Aí chegou Lampião

Dizendo que quer entrar

E eu vim lhe perguntar

Se dou-lhe o ingresso ou não

- Não senhor, Satanás disse

Vá dizer que vá embora

Só me chega gente ruim

Eu ando muito caipora

Estou até com vontade

De botar mais da metade

Dos que tenho aqui pra fora

Lampeão é um bandido

Ladrão da honestidade

Só vem desmoralizar

A minha propriedade

E eu não vou procurar

Sarna para me coçar

Sem haver necessidade

(A Chegada de Lampião no Inferno, estrofes X e XI)

A transformação do diabo em um ser humano comum evidencia o deslocamento da luta para outra arena. O que ocorre aqui é a repetição do mecanismo épico, no qual o herói (e o vilão) se transmuda no coletivo, encarnando os interesses e valores do povo. Tal como o boi fujão, descrito no capítulo anterior, Lampião torna-se figura emblemática, concentrando em sua personalidade ambígua o desejo de subversão popular. Sua luta com o diabo representa a luta do povo contra os poderes terrenos, seja patrão ou governo, ou contra as vicissitudes trazidas com as secas, as condições climáticas adversas.

É por isso que, nos cordéis de Pacheco e Rodolfo em análise, Lampião age apoiado em uma justificação tácita do povo. Regendo-se pela lógica de pensamento e reação popular, Lampião age da mesma forma que agiria o sertanejo submetido às condições de extrema penúria e sofrimento. Lampião só ataca porque foi atacado, é o que defende o povo inculto. Isso fica claro nos argumentos aos quais o cangaceiro recorre para livrar-se da punição eterna:

Chegando no gabinete

Do glorioso Jesus

Lampeão foi escoltado

Disse o Varão da Cruz

Quem és tu filho perdido

Não estás arrependido

Mesmo no Reino da Luz?.

Disse o bravo Virgulino

Senhor não fui culpado

Me tornei um cangaceiro

Porque me vi obrigado

Assassinaram meu pai

Minha mãe quase que vai

Inclusive eu coitado.

(A Chegada de Lampião no Céu, estrofe XIII)

Como se percebe, Lampião em seu favor, lembra o episódio da morte do pai pelos posseiros da fazenda família. Isso equivale, na lógica do sertanejo, a uma justificativa que não deixa margem para questionamentos, haja vista apoiar-se na vingança, na retribuição à moda da lei do talião do “dente por dente, olho por olho”. O povo, em geral, defende essa vingança, transmudada em “justiça”. É por essa razão que ambos os cordelistas, porta-vozes do pensar do povo, se não absolvem de todo, também não deixam de aliviar a punição de Lampião.

De fato, em ambas as histórias Lampião não é castigado propriamente, já que sua pena não passa por uma permanência duradoura no Inferno: enquanto no cordel de Rodolfo, o fim de Lampião é o Purgatório, em Pacheco o destino de Lampião, embora incerto, parece ser um retorno ao sertão:

Disse Jesus: Minha Mãe

Vou lhe dar a permissão

Pode expulsar Ferrabrás

Porém tem que Lampeão

Arrepender-se notório

Ir até o " purgatório"

Alcançar a salvação.

(A Chegada de Lampião no Céu, estrofe XXX)

Leitores vou terminar

Tratando de Lampeão

Muito embora que eu não posso

Vos dar a resolução

No inferno não ficou

No céu também não chegou

Por certo está no sertão.

(A Chegada de Lampião no Inferno, estrofe XXX)

Entretanto, a minimização da pena não implica na eliminação total do castigo. É que os cordelistas não podem pôr de lado os crimes sabidos, as crueldades do cangaceiro aqui na terra. Com isso, reafirma-se o caráter ambíguo desse herói popular, consagrada pela vida do pavor que despertava, e não da admiração e da nobreza de seus gestos.

Portanto, o movimento retórico que confunde os lugares da outra vida com a terra, operado através da reinvenção do Céu e Inferno pelos cordelistas é destacado por Kunz (2001, p. 62), ao procurar afirmar o papel da literatura de cordel como um instrumento de contestação, assim explicado pela autora:

À realidade opressora do " aqui e agora" denunciada nos folhetos, o poeta opõe um tipo de combate dado no modo imaginário e cujas armas são a utopia, o mito, a lenda, o milagre... Pela exploração do imaginário e da memória coletivos, ele procura, através da escrita, a livre circulação do ser dentro de si mesmo, fora de si e além da morte. Do mecanismo compensatório à afirmação da força reivindicativa, entre a miséria efetiva, vivi­da, e o poder de intervenção irreal, ergue-se o poeta e sua palavra. As reimpressões sucessivas de alguns clássicos da literatura de cordel testemunham o sucesso dessa fonte de inspiração: Viagem a São Saruê, de Manoel Camilo dos Santos, A Chegada de Lampião no Inferno de José Pacheco, ou o Romance do Pavão Misterioso, de José Camelo de Melo Resende.

A partir dessas considerações, a autora, referindo-se ao cordel A Chegada de Lampião no Céu, sintetiza as intenções de Rodolfo Cavalcante subjacentes ao texto:

(...) a reivindicação simbólica efetua-se em dois níveis: de um lado, a morte não é tratada como o fim da vida, mas como a imagem inversa da vida. Aos homens que não têm poder real sobre suas próprias vidas, o poeta propõe um poder irreal sobre a morte. A morte lhes pertence.

Por outro lado, o cangaço, fenômeno social decorrido da miséria cotidiana, torna-se o símbolo da opressão e da injustiça sofridas pelas populações do Nordeste. O bandido vira herói mítico, sua epopéia é exemplar: só, embora o grupo fosse um elemento característico do cangaço, o cangaceiro, arquétipo do herói invencível, desafia a morte, afugenta o diabo, obtém promessas de absolvição. Ele propõe de modo individual e fictício, uma forma de combatividade prestigiosa, imagem inversa do sonho de ascensão social que não devia alcançar êxito.

Da História à lenda, da vida à pós-vida, do poder carismático do líder à invencibilidade mítica: o sonho supera a mentira, a mitificação ultrapassa a mistificação.

Como se pode perceber pelas palavras de Kunz, a conversão de Deus e do Diabo em uma espécie de “executivos eficientes de uma agência de viagens” e da morte em “um vis­to temporário”, fazem parte da mesma ação que transforma Lampião em um “herói incansável e invencível que é inúmeras vezes mandado para o céu ou para o inferno, mas sempre volta”.

É assim que em A Chegada de Lampião ao Céu e em A Chegada de Lampião ao Inferno, Rodolfo Coelho Cavalcante e José Pacheco da Rocha descortinam aos olhos de seu leitor, por meio de um lógica de subversão, o desejo de, negando a realidade que é opressora, afirmar toda a potencialidade reivindicatória do cordel, lançando mão da ficção como um meio genuíno e eficaz de libertação e afirmação da identidade e da dignidade espoliada pelo descaso e pela violência.

(*) Tânia Maria de Sousa Cardoso, Pedagoga/Supervisão Escolar, formada pela atual Universidade Federal de Campina Grande/UFCG, Centro de Formação de Professores/CFP, Campus de Cajazeiras – PB. Especialista em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN. Professora da Rede Municipal de Ensino de Mossoró/RN.

Um comentário:

  1. Presume-se que nosso Blog seja um espaço que como o próprio nome diz BLOG = PEQUENAS NOTAS.

    Não convém que se postem matérias como essa que consomem quase a página toda da frente do Blog e ainda mais, 2 vezes, sem qualquer diagramação. Um verdadeiro absurdo.

    Fica aqui a minha sugestão de que se a matéria for longa, ela seja postada em 3 ou 4 partes em tempos diferentes, a fim de que não apareçam nem 2 das partes na página principal.

    Agradecemos a compreensão.
    Dihelson Mendonça

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