quarta-feira, 7 de julho de 2010


O cangaço como temática artística

(*) Tânia Maria de Sousa Cardoso

Embora o cangaço tenha se desenvolvido alimentando-se do terror, única arma à qual recorriam para dobrar os inimigos, a população mais pobre sempre se revelou dividida entre dois extremos: a concepção que via o cangaceiro como um ser marginal, sanguinário e violento, e portanto um inimigo a ser temido, e a percepção dos bandoleiros como uma espécie de justiceiro, de símbolo da resistência aos coronéis, chefes políticos locais, igualmente violentos e facínoras. Nessa última concepção, a figura do cangaceiro avulta como uma espécie de herói, que dá ao opressor, e aos que se colocam a serviço deste, a paga ao pouco caso para com o sofrimento do pobre.

Esse contínuo equilíbrio entre uma concepção e outra levava os menos favorecidos a servirem aos dois senhores, policiais e cangaceiros, com o único propósito de sobreviverem naquele clima de terror. Como resultado disso, o “coiteiro” de hoje, assim chamado o indivíduo que fornecia proteção aos cangaceiros, poderia ser o informante das volantes de amanha ou mesmo um “cachimbo”, como era chamado a pessoa que perseguia cangaceiros por vingança e não tinham vínculo com o governo.

Uma explicação para esse movimento contraditório, que ora afirma o cangaceiro como bandido, ora o vê como uma espécie de herói popular, é dada por Hobsbawn (1976). Para o renomado autor, a ambigüidade no tratamento do cangaceiro decorre do fato do mesmo não se constituir em um criminoso comum, mas sim naquilo que a sociologia define como bandido social, que Hobsbawn assim conceitua:

O ponto básico a respeito dos bandidos sociais é que são proscritos rurais, encarados como criminosos pelo senhor e pelo Estado, mas que continuam a fazer parte da sociedade camponesa, e são considerados por sua gente como heróis, como campeões, vingadores, paladinos da Justiça, talvez até mesmo como líderes da libertação e, sempre, como homens a serem admirados, ajudados e apoiados. ( p. 11)

Para o autor, o bandido social não deve ser visto indistintamente, posto haver diferenças muito grandes entre eles. Por isso, Hobsbawn propõe a classificação desses bandidos em três categorias: a) o ladrão nobre, ou Robin Hood; b) os haiduks, assim denominados os combatentes primitivos pela resistência; e c) o vingador, que semeia o terror, compreendendo, dentre outros tipos de bandidos, os cangaceiros nordestinos.

A partir dessa distinção é que Hobsbawn irá analisar a figura ambígua de Lampião, misto de herói popular e fora-da-lei:

Lampião foi e ainda é um herói para sua gente, mas um herói ambíguo. Talvez o cuidado normal explique por que o poeta [popular] faz sua mesura à moralidade formal e registra a "alegria do Norte" ante a morte do famigerado bandido (De forma alguma todas as baladas seguem esta linha). A reação de um sertanejo de Mosquito talvez seja mais típica. Quando os soldados chegaram com as cabeças de suas vítimas em latas de querosene, de forma a convencer todos de que Lampião estava realmente morto, ele disse: "Mata­ram o Capitão, porque a reza forte nada adianta na água". Explica-se a observação: o último refúgio de Lampião fora o leito seco de um ribeirão, e de que outra forma, senão pelo fracasso da magia, podia-se explicar sua derrota? Não obstante, apesar de herói, Lampião não era um herói bom.

É verdade que ele fizera uma romaria ao famoso Messias de Juazeiro, o Padre Cícero, pedindo sua bênção antes de abraçar o cangaço, e é também verdade que o santo, embora debalde o exortasse a renunciar à vida marginal, dera-lhe um documento em que o nomeava capitão, e tenentes a seus dois irmãos. Contudo, a balada de onde extrai a maior parte desse relato não menciona qualquer desagravo de ofensas (exceto no seio do próprio bando), nenhum ato de tirar dos ricos para dar aos pobres, nenhuma dispensação de justiça. Registra batalhas, ferimentos, ataques a cidades (ou contra o que passava por cidades no sertão brasileiro), seqüestros, assaltos a ricos, combates com os soldados, aventuras com mulheres, episódios de fome e de sede, mas nada que lembre os Robin Hoods. Pelo contrário, registra "horrores". (1976, p. 57). [Grifo do autor].

A despeito de todas esses crimes que Hobsbawn destaca, e mesmo de outras tantas atrocidades atribuídas a Lampião, o cangaço há muito vem atraindo os artistas, que terminaram contribuindo para a afirmação do mito do cangaceiro.

De fato, as diferentes manifestações artísticas se apropriaram e reforçaram o mito do cangaceiro, inclusive expressando algumas vezes uma visão romantizada do herói-bandido. É exemplo disso o filme que o libanês Benjamin Abraão Botto realizou sobre o cangaço, seguindo-se e ele diversas outras películas, incluindo entre estes O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto, premiado em Cannes como “melhor filme de aventuras” e apontado como revolucionário.

Outra leitura do cangaço que merece destaque é a minissérie Lampião e Maria Bonita, produzida pela Rede Globo nos anos 80, com altos índices de audiência, e que trazia nos papéis principais os atores Nélson Xavier (Lampião) e Tânia Alves (Maria Bonita).

Também no âmbito da música se podem citar exemplos da exploração do mito do cangaço. A minissérie televisiva citada, a propósito, trazia como música tema a canção Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor, da autoria de Octacilio Batista e Zé Ramalho, interpretada por Amelinha, e que, em certo trecho, descreve a bravura e o encanto de Maria Bonita que, segundo a letra da música, trazia cativo o valente Lampião. Ademais, pérolas do cancioneiro popular, como a célebre Mulher rendeira, são atribuídas ao chefe bandoleiro, que também nunca perdeu o contato com suas aptidões musicais.

É na literatura, entretanto, que estão os maiores exemplos da apropriação do universo e da temática do cangaço, conforme se observa pelas obras já citadas em capítulos anteriores.

Uma possível resposta pode ser entrevista em obras de vários autores consagrados pelo cânone literário das academias, notadamente aqueles pertencentes à vertente regionalista nordestina.

Assim, um primeiro exemplo, além do já citado O Cabeleira (s./d.), de Franklin Távora, pode ser observado no romance Vidas Secas (2000), escrito por Graciliano Ramos, no qual o narrador descreve a revolta contra as injustiças das autoridades, representada pela violência do soldado amarelo, induz o personagem Fabiano a considerar a possibilidade de entrar para o cangaço, ao que corresponde uma associação da figura do cangaceiro como uma espécie de justiceiro social.

Outra é o motivo que leva Volta-Seca, um dos meninos de rua enfocados em Capitães de Areia (1996), clássico de Jorge Amado, a ingressar no bando de Lampião, embora haja sempre a possibilidade de identificar esse motivo com a falta de perspectivas característica dos miseráveis: o gosto de aventuras e a atração pelo poder.

Em Os Sertões (2000), obra de Euclides da Cunha, escritor pré-modernista, o sertanejo é descrito como um forte, mas também como um ser teimoso, que mesmo prevendo um futuro trágico tende a se deixar levar pelos caminhos do cangaço. Na obra, o autor destaca como uma das causas desse fenômeno a compreensão do sertanejo da vingança como um dever sagrado, ao que se soma a miséria advinda dos flagelos locais, acrescida ainda mais com a falta de justiça: a polícia era de um partido político, era do governador, de quem mandava; se alguém fosse seu correligionário teria poderes para muitas coisas, inclusive de silenciar a justiça. Daí resultara a percepção dos cangaceiros como pessoas prontas para resistir e para combater a polícia partidária.

No que diz respeito à literatura modernista, convém destacar que para os escritores da Semana de 22, o cangaceiro é acentuado como uma expressão da verdadeira brasilidade, retratando a verdadeira essência do homem sertanejo que se vale das armas para tentar pôr fim às suas agruras.

A exploração da figura do cangaceiro pela literatura de ficção acadêmica, entretanto, nem de longe pode ser comparada com o que ocorreu no âmbito da literatura de cordel, da qual sempre havia quem utilizasse seu talento artístico para dar destaque ao lado poético, sensível e “bondoso” do cangaceiro, principalmente de Lampião. A freqüência com que a figura do Lampião foi (e continua sendo) abordada pelo cordel, inclusive, fundou um ciclo autônomo do cangaço no meio cordelista.

(*) Tânia Maria de Sousa Cardoso, Pedagoga/Supervisão Escolar, formada pela atual Universidade Federal de Campina Grande/UFCG, Centro de Formação de Professores/CFP, Campus de Cajazeiras – PB. Especialista em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN. Professora da Rede Municipal de Ensino de Mossoró/RN.

Um comentário:

  1. Caraca, Isso é um Livro que estão tentando publicar aqui todo de uma vez ? Blog é um lugar de pequenas Notas!

    Dihelson Mendonça

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