quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Era pra ser apenas mais um carnaval...
E seria assim não fosse os descaminhos que a vida nos prepara.
Alfredo Ossian, um executivo perfeito, parado em frente à janela da sua sala, olhava para rua calado, inerte. Pensativo. Ora ria, ora sério, ora assoviava. Seu jeito sisudo de ser e o seu comportamento padrão, escondia naquele executivo, um homem carente de alegrias. Ávido de liberdade. Há tempos não sabia o que era um carnaval. Desde quando a adolescência se foi, ele assumiu a postura de homem sério.
Mas naquele ano a alegria lhe parecia chegar com toda a sua plenitude. Nada que mudasse o seu conceito sobre a festa. Afinal, o carnaval se reveste de dias de alegria. Liberdade e alegria em conluio se refazem nos quatro dias de festa. Mas a vida lhe exigira aquela postura.
Ninguém sabia, mas por trás daquela cara amarrada, estava um homem que amava. Também estava ali um homem que traía. Que se entregava às lides de Baco quando a liberdade o permitia.
Aos poucos o som do surdo se instalara na sua cabeça numa intermitente marcação de frevo, insistindo em não lhe deixar pensar em outra coisa que não fosse C A R N A – V A L... TUM-tum...TUM-tum...TUM-tum.... Nessa hora o sangue corre mais rápido nas veias daqueles que anseiam alegria. Corações em festa. São momentos em que a ansiedade de folião de repente se faz presente na cabeça e o pensamento lhe remete às velhas marchinhas tão presentes nos quatro dias de Momo....
♫ô abre alas que eu quero passar... eu sou da Lira não posso negar...Rosa de Ouro é quem vai Ganhar..
♫Êêêêuu fui uma tourada em Madriii...eeee quase não volto mais aquiii...prá ver Periii...beijar Ceciii....
Assim é que, em meio à multidão em festa, se vê passando um bloco do eu sozinho, outro bloco do nós juntos, e outro bloco, e outro, e outro... Avidez ambulante procurando alegrias coletivas regadas a largos brindes no banquete Dionisíaco. Uma parada aqui...outra ali... Nas esquinas, Nos bares e botequins o burburinho das palavras se misturavam. As pessoas trocavam ideias enquanto faziam planos para o reinado da folia.
Era sábado gordo. E era fim de tarde. Destaque para o Beco das Margaridas. Uma rua pequena onde ainda resistia o calçamento de pedra batida e de paredes largas denunciando a idade dos casarões que se transformaram em bares. Outrora lupanares, agora eram ambientes perfeitos para cervejas num fim de tarde. Entre os frequentadores do Beco das Margaridas, destacava-se Alfredo; aquela pessoa comum, séria, calada, muito querida na empresa em que trabalhava, onde era supervisor de vendas e coordenava uma equipe de seis pessoas que, formalmente, o tratavam por Dr. Alfredo Ossian.

Extremamente sério quando em serviço, Alfredo adorava uma mesa de bar e um happy hour regado à cervejotas e petiscos. Bastava a primeira dose para desabrochar o personagem que guardava a sete chaves. Eram momentos em que Alfredo se transformava numa pessoa alegre, descontraída, loroteiro, gostava de piadas e gargalhava alto sempre que algo lhe parecia engraçado.
Alfredo Ossian era casado com Rosa Aline, uma mulher loira, alta, bonita, dada às lides de casa. Cuidar de filhos era um passatempo. Carinhosa, porem, geniosa ao extremo. Há tempos, Rosa reclamava e desconfiava do marido. Inclusive, alguns rapapés já teriam sido gerados pela desconfiança e o ciúme de uma tal Leila. Bonita, morena, solteira e frequentadora do Beco das Margaridas.
Alfredo resolvera ir ao Beco e naquele dia encontraria amigos no boteco de sempre. Seria mais um encontro informal. Porém, o happy hour de hoje tinha uma cor e um ar diferente. O Boteco era o de sempre, os amigos eram os de sempre, mas o clima era outro. Era carnaval.
Alí, mulheres enfeitadas, espalhavam no ar o cheiro de perfumes afrodisíacos. Brilhos no pescoço em colares coloridos, pulseiras e pratarias lhes enfeitavam os pulsos e os dedos. O vermelho das bocas molduravam lábios carnudos e desejantes. Os olhos também brilhavam, assim como os olhos dos homens que, ao derredor, sonhavam orgias infindas.
Ao fundo, em meio às gargalhadas e ao tilintar de copos em brindes, as marchinhas começavam a encher o ar com uma eminente alegria, acompanhadas por um, ainda tímido, coral informal.
E assim...entre sussurros..., a noite começa. E o Carnaval chegou...
Hoje o dia passou rápido e a noite, sem rodeios, dava o ar da graça com um cenário colorido... teremos uma noite diferente. A alegria se instalara no Beco das Margaridas desde as ultimas horas da tarde deste sábado gordo.
A balada apenas começava. As calçadas agora já tomadas pelas mesas era o palco do carnaval. O ambiente momino se fez nascer de vez. Agora, pessoas iam e vinham. Umas voltavam para as suas casas, outras passavam, outras chegavam e ficavam. Siiiimmm...realmante já era carnaval.

Na calçada em frente, alguém com colar havaiano e camisa florida, cantarolava alto enquanto desenrolava no ar as primeiras serpentinas. Outros mais comedidos,   ensaiavam bitocas e combinações para o “mais tarde” baquiano. Desenroladas e atreladas aos fios elétricos, as serpentinas coloridas davam ao Beco das Margaridas, a sua perfeita fantasia.

De repente, aos olhos de Alfredo, o cenário do Beco se enfeita de vermelho. Era Leila que chegava em passos lentos. Num salto alto exibindo toda a graça de que lhe presenteara a vida. Lábios carnudos, olhos pretos e bem abertos,cílios postiços lhes realçavam e os cabelos encaracolados lhe escorriam pelos ombros. Vestia um vermelho com um generoso decote que, bem colado deixava à mostra a perfeição de um belo par de pernas e o arredondado perfeito de suas nádegas. Uma Deusa.
Olhos nos olhos, Leila passa como quem não quer nada mas, no fundo, se faz presente a uma ínfima distancia de Alfredo. Provocante...adocicando o ar.
Olhos nos olhos, agora mais insistente, Alfredo provocava uma aproximação desinteressada, porém, caliente. Conversaram bastante. Alfredo sentindo o clima, pensou duas vezes. Melhor não tentar... Deu de ombros...pediu a conta e se foi pra sua casa. No caminho a insistente imagem de Leila quase não o deixa ver as ruas, o transito. A medida que chegava em casa se lhe recobrava o juizo.
Dificil para Rosa Aline não perceber...não imaginar o que ocorrera. Já era praxe uma briguinha por causa do Beco das Margaridas. Porém, naquela noite, Alfredo não segurava o seu desejo de voltar e estar com Leila. Rosa notou a sua indiferença e sem hiato de tempo disparou:
• Conheço a sua cara de desconfiado. Com certeza estava acompanhado e eu já imagino com quem você estava...dizia Rosa.
Claro que eu estav com os amigos de sempre...Alfredo respondia à meia boca, asiim...meio calado.
A certa altura a discussão tomou outro rumo, cobranças de parte à parte e as agressões verbais também. Os ânimos se acirraram e Alfredo, de súbito, toma uma decisão: voltaria ao Beco das Margaridas. Não adiantou os pedidos de “fique” e nem as ameaças de Rosa Aline. A decisão se concretizou.
No trajeto de volta os pensamentos se misturavam entre a ira provocada pela discussão e a certeza de que reencontraria Leila. A paixão alimentada e tantas vezes recolhida viera como um relâmpago. Seu coração disparara. Por que não? Perguntava a si mesmo como que fosse uma justificativa ao que pensava em fazer naquela noite.
Ao chegar ao Beco das Margaridas uma ultima decisão. Na primeira oportunidade se declararia a Leila. Imaginava não ter outra oportunidade. A briga em casa, o carnaval, os drinks, o vestido de Leila, a boca, o perfume, tudo era pretexto.
Os amigos ainda estavam no bar. Mesmo desconfiados festejaram a volta de Alfredo que, atento, fazia passear os olhos procurando por Ela em meio aos foliões. A caminho do banheiro encontra a sua Deusa. Atrapalharam-se na passagem, bateram-se de frente e....buuuuummmm. “ é agora ou nunca mais – pensou...”
Investiu sem medo. Um beijo na boca carnuda selou de vez a realização de desejos há tempos guardados. E foi um beijo quente, molhado, em câmera lenta. A mão na nuca ajudava no passeio de sua língua na boca de Leila. Boca na boca, Tentando roçar pernas Leila correspondia aos carinhos enquanto Alfredo se deleitava por aquela que lhe despertou tanto desejo.
A noite seguiu, a partir daí, em clima de romance à la shakespeare. Mão na mão. Cadeiras coladas, promessas, palavras doces, carinhos no rosto, por vezes mão no ombro, por vezes mão na perna. Bitocas, línguas. Era enfim o sonho.

O surdo continuava a sua intermitente marcha. O vai e vém de pessoas não deixou que ninguém desse conta da chegada de Rosa Aline. Parada, estática em frente à mesa, assistia ruborizada a mais um beijo do casal recém-formado. Ela não podia acreditar no que via. Mas a surpresa veio acompanhada de uma incendiada revolta. Aí a ira e a geniosidade falou mais alto dando lugar à parcialidade.
Frente a um casal literalmente parado e de olhos esbugalhados ela parece calada enquanto o coração ainda lhe repete a cena que presenciara a instantes. Num trágico rompante, Rosa puxou da bolsa uma pequena pistola.
Naquele momento, entre os rufos da caixa de guerra e a marcação do surdo, ecoa um som estridente, quebrando o ritmo da musica. Rosa Aline dispara quatro tiros certeiros e fatais.
Dalí a não mais que alguns minutos o som que se ouve não é mais o som dos clarins de momo. Ecoa no Beco das Margaridas o som estridente das sirenes dos carros de policias e de ambulâncias.

Agora o Beco está quase deserto. No chão dois corpos. Dois filetes vermelhos se deslocam para o canto do meio fio. O casal está desfeito. Uma vela para dois. O vermelho da paixão, está desfeito em sangue que percorre o meio fio.
Rosa seguiu com os policiais, deixando para traz as cores carnavalescas, agora tristes, enlameadas pelo vermelho sangue que restou daquela tragédia.
O Beco das Margaridas está em silencio sepulcral. Está de luto. Ao longe, em outras plagas, ainda se ouvia, trazidos pelo vento, o som de um fim de noite de carnaval...
• ♫é de fazer chorar, quando o dia amanhece e o ultimo frevo tocar

• ♫ó quarta feira ingrata, chegou tão depressa , só pra contrariar...
(WILTON DEDÊ)
Fotos:Internet

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