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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Cariri tem a primeira mulher na ABLC

Josenir Lacerda do Crato, já tomou posse na Academia Brasileira de Literatura de Cordel. É a segunda cearense.
Crato. Uma região destaque na produção de cordéis passa a ter, pela primeira vez, uma representante na Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). Josenir Alves de Lacerda, do Crato, é a primeira mulher caririense a fazer parte da entidade, e a segunda cearense. Ela foi empossada na cadeira número 37, no Rio de Janeiro, no último mês de dezembro. A cordelista teve um grande incentivador na sua caminhada: o poeta popular Antônio Gonçalves da Silva, o conhecido Patativa do Assaré, que chegou a fazer rimas de elogios ao trabalho da poeta cratense.

Um momento de emoção, em que o Cariri passa a ter uma representante na ABLC. Para Josenir, que assumiu a cadeira do titular Gonçalo Ferreira da Silva, é uma honra hoje estar nesse lugar. Ela está preparando o cordel, já que essa é uma missão de quem assume um lugar na academia, do seu titular. A presença da mulher e dos cordelistas cearenses na academia têm uma ênfase feminina. Josenir, agora imortal, passou a fazer parte a partir do seu contato com outra cearense, há cerca de 30 anos morando no Rio de Janeiro, Maria de Lourdes Aragão Catunda.

Josenir, nesse momento, prepara dois novos trabalhos para serem lançados por grandes editoras do cordel do Brasil. O primeiro deles, com um tema exclusivo sobre o cangaço, e que traz uma de suas características de trabalho, que é a pesquisa apurada. A "Medicina no Cangaço" será lançado pela editora Luzeiro, de São Paulo. A cordelista está ampliando um cordel que fez anteriormente, já que o cordel, que será lançado pela editora paulista, tem um formato maior e requer pelo menos 100 estrofes. Ela utilizou livros de pesquisadores do cangaço para verificar um tema diferenciado para explorar no cordel.

Outro trabalho virá pela editora Ensinamentos, de Brasília. Uma reedição do cordel, em livretos, escrito em parceria com o cordelista João Nicodemos. O cordel "Segredos da Natureza" fará parte da coleção Cesta Básica da Cultura e do Conhecimento. Mas a também integrante da Academia dos Cordelistas do Crato tem trabalhos na sua carreira de sucesso e com várias edições publicadas.

Um deles é "Linguajar Cearense", na quinta edição. Duas delas pela Tupinambá Editora, Livro Técnico e o primeiro pela Academia de Cordelistas do Crato. Esse trabalho, em particular, fez um giro pela internet, e serviu mais ainda para divulgar esse trabalho de Josenir, também fruto de uma pesquisa de resgate da linguagem coloquial do cearense. Termos, que segundo a cordelista, já não se fala mais. Por isso, a importância desse e a contribuição do cordel para o resgate.

Ainda criança
Josenir iniciou cedo no cordel. A menina tímida que começou a escrever versos de verdade para extravasar a sua timidez aos poucos conquista o seu espaço. De pequena, quando lia os clássicos do cordel para a avó, veio o tempero do imaginário.

A memória passa a ser povoada pelos príncipes e princesas, reis e rainhas, os dragões, os heróis nordestinos, o Pavão Misterioso. Ela vive cercada pela arte. Em casa, tem uma pequena lojinha de artesanato. O local é ponto de encontro de artistas, onde podem ser encontrados vários exemplares de cordéis, inclusive os seus.

São 63 livretos escritos. Desses, 14 parcerias, 16 coletâneas e 33 particulares. A inspiração surge de repente e os versos começam a ser decantados, entrando pelas suas origens. Josenir é funcionária pública aposentada. No trabalho brincava com os seus versos.

Desde que assumiu a Academia de Cordelistas do Crato, a convite do mestre Elói Teles, relembra a importância do folclorista que lutou pela preservação da literatura de cordel, teve uma preocupação em incentivara a participação da mulher.

MAIS INFORMAÇÕES
Espaço Cordel e Arte, localizado na Rua José Carvalho, 168, Bairro do Centro, Município do Crato - CE
Telefone: (88) 3512. 0827

RENOVAÇÃO
Tradição tem conquistado espaço

O cordel se renova para acompanhar a evolução dos tempos. Josenir Lacerda lia os livretos para se atualizar do que estava acontecendo no mundo, quando pequena, lá do sítio onde morava, na zona rural do Crato. Essa tradição, com a evolução dos meios de comunicação de massa, também assumia espaços diferenciados, naturalmente. A origem dos versos sempre esteve presente. Mesmo que essas estrofes povoassem o imaginário da poeta, crescia a admiração que tinha pelo cordel e a manifestação da sua linguagem nos versos. Nascia então a escritora que hoje assume um posto representativo na sua área.

"O cordel tem conquistado um espaço maravilhoso", afirma a cordelista, ao destacar a sua felicidade de ver a forma como isso vem acontecendo. Inclusive, diz ela, despertando o interesse da juventude. A pesquisa na academia tem dado um impulso e uma valorização nesse processo, conforme avaliação de Josenir. Um desses trabalhos teve como tema o humor no discurso poético de Josenir, apresentado por uma estudante sobre a cordelista cratense.

Essa renovação na produção foi uma forma de acompanhar o tempo, com novas mídias em processo. O cordel perde um pouco, segundo Josenir, esse caráter de noticioso, mas assume, ao mesmo tempo, uma forma diferenciada de abordagem dos processos históricos e da própria atualidade. Um olhar poético sobre os acontecimentos.

Ela assumiu sua cadeira dentro dos padrões, com homenagens em versos. E a contribuição para a ABLC é bem do jeitinho de Josenir: com os versos dos cordelistas da região. Ela se comprometeu em mandar para a biblioteca da Academia, de mais de 13 mil títulos, no Rio de Janeiro, os cordéis publicados no Cariri e no Estado. Uma forma de integrar mais ainda essa grande produção local. Como ela mesma diz, o espaço não é só dela, mas do cordel do Cariri.

Para a pesquisadora Rosilene Melo, que ano passado lançou o livro "Arcanos do Verso", com pesquisa focada na Lira Nordestina, em Juazeiro do Norte, - trazendo um apanhado histórico sobre a história do cordel, enquanto tema de pesquisas científicas -, o cordel é um campo extremamente fértil. "Embora tenhamos uma quantidade muito grande de monografias, dissertações e teses, muitas facetas do cordel ainda precisam ser exploradas, uma vez que o cordel é, por excelência, um produto cultural em constante diálogo com os acontecimentos de seu tempo, portanto, é sempre contemporâneo", explica.

Primeiras pesquisas
As primeiras pesquisas sobre o cordel no Brasil tiveram início com o movimento modernista de 1922. No entanto, o cordel era compreendido, na época, como uma expressão do folclore brasileiro. Isto graças à influência do movimento folclorista europeu do século XIX.Clique para Ampliar
Josenir Alves de Lacerda foi empossada na cadeira 37, no Rio de Janeiro, no último mês de dezembro. Ela teve um grande incentivador: o poeta popular Patativa do Assaré
ELIZÂNGELA SANTOS
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As primeiras pesquisas sobre o cordel no Brasil tiveram início com o movimento modernista de 1922. O cordel, hoje, é tratado como cultura popular e predomina nos estudos acadêmicos
ELIZÂNGELA SANTOS
16/1/2011
Josenir Lacerda, do Crato, já tomou posse na

O segundo momento importante para o cordel, segundo ela, é a retrospectiva dos estudos sobre na década de 1970, quando o cordel migra das academias folclóricas para as universidades. A partir de então o cordel deixa de ser tratado como folclore, como tradição em vias de extinção; o conceito de cultura popular, e por extensão, de literatura popular, passa a predominar nos estudos acadêmicos. Rosilene Melo classifica o movimento atual do cordel como maravilhoso, com a inserção em diversas mídias - como a internet (com inúmeros sites e blogs). Além das escolas, que definitivamente incorporaram o cordel na sala de aula, como linguagem que desenvolve diversos processos cognitivos nas crianças e jovens.

Fique por dentro
Fundação da ABLC

A Academia Brasileira de Literatura de Cordel foi criada no dia 7 de setembro de 1988. Na diretoria, assim constituída, eram somente três os cordelistas: o presidente, Gonçalo Ferreira da Silva, o vice, Apolônio Alves dos Santos e o diretor cultural, Hélio Dutra. Hoje o corpo acadêmico da ABLC é composto de 40 cadeiras de membros efetivos, sendo que 25% destas cadeiras podem ser ocupadas por membros não radicados no Rio de Janeiro.

Elizângela SantosRepórter

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